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E se as praxes fossem vistas como 'violência na escola'?

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FERNANDA CÂNCIO  

Ana Feijão. É o rosto actual de um movimento iniciado em 1994, o MATA (anti-'tradição' académica). Defende o debate e a escolha. E, na esteira do caso Michaëlis, deixa uma pergunta:

"Houve algumas coisas que me desagradaram mas nunca mais pensei nisso." É assim que Ana Feijão, 24 anos, fala da sua experiência de praxe, em 2001, no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa. "Queria ser praxada porque o meu irmão tinha sido no ano anterior e tinha gostado muito. Então inscrevi-me numas coisas: uma espécie de caça ao tesouro, andar de sítio em sítio dentro da tapada e em cada sítio havia as brincadeiras que a comissão de praxes organizava - tipo brincar com comida, gritar cenas, beber vinho com pimenta ou sal... Não fui coagida a nada." A sua aversão à praxe, ou à tradição académica com aspas - e é com aspas na sigla do MATA (Movimento Anti-"Tradição" Académica) só viria bastante depois, por influência dos amigos que fez no instituto e que pertenciam ao movimento.

Claro que a Ana Feijão ninguém barrou com bosta de ovelha ou cortou os pêlos púbicos -para usar exemplos de "praxes" cuja notícia correu o país levando mesmo, no primeiro caso, a um processo em tribunal cuja sentença de primeira instância será conhecida no dia 23 de Maio (no caso do corte de pêlos púbicos, ocorrido em 2007 com um jovem a quem foram causados ferimentos no escroto, foi feita queixa mas retirada a seguir). Porque, afinal, há graus nisto - de "ajoelhar de cara pintada a cantar o Noddy", como exemplifica Ana, a simulações de actos sexuais e humilhações extremas e sevícias graves, há praxes para tudo, ou de tudo nas praxes. Sendo o maior busílis disto tudo que os caloiros participem, de livre vontade, em actividades desenhadas para que outros se divirtam à sua custa. Porquê? Ana responde como quem já pensou muito no assunto e ainda não chegou a uma conclusão certa (quiçá por não haver uma). "Fico normalmente muito irritada quando vejo as praxes na rua - mas tento perceber por que raio as pessoas se identificam com aquilo. Por um lado, é aquela coisa de não querer ser 'corte', de querer ser 'fixe'. As praxes são um tipo de socialização, uma forma de os caloiros conhecerem pessoas, sentirem-se acolhidos, de alguma forma integrados. E, claro, existe uma certa pressão de grupo, o receio de contrariar. Quando alguém diz que não quer, pode ser alvo de ostracismo - já sucedeu. Ou dizem-lhe que tem de assinar um papel a certificar ser antipraxe, o que é completamente ridículo. Há até sítios nos quais o acolhimento ao caloiro é feito pelo presidente do conselho directivo, o presidente da associação de estudantes e o presidente da associação de praxes, como se houvesse uma legitimidade qualquer da praxe." Confusões que, aliás, são notórias nos casos que chegaram a tribunal. No de Santarém, da aluna de agronomia que se queixa de ter sido "barrada com bosta", houve professores e até um ex-presidente do Conselho Directivo da escola a certificar que as praxes são boas e desejáveis e que o contacto com a bosta é "natural". Confusões tanto mais difíceis de entender quanto isso a que se chama praxe e que a cada Outubro invade, sob a forma de grupos gente de "traje académico" a pastorear os respectivos caloiros, em figuras geralmente indescritíveis, as localidades onde existem institutos superiores, era "tradição" inexistente na generalidade das instituições superiores nacionais durante os anos 80 - como qualquer pessoa que tenha frequentado a faculdade nessa altura poderá atestar. "A última vez que as praxes acabaram foi em 1969", comenta Ana, que considera o seu ressurgimento como uma consequência da explosão do ensino superior privado. "As privadas precisavam de marketing, de fazer parecer que não tinham começado ontem.".

Mas que fique claro: Ana e o seu movimento, apesar do seu nome, não defendem proibições. "A praxe não pode ser proibida porque não existe, não é? Institucionalmente não existe. E as pessoas até podem gostar daquilo, de estar de joelhos com cara pintada a cantar o Noddy . A questão é que saibam que podem escolher. O que fazemos essencialmente, no MATA, é tentar discutir a razão de ser das praxes. Mais do que defender medidas institucionais, é debater."

Debater a praxe passa também por lançar uma perplexidade: "As pessoas estão muito preocupadas com a 'agressão' do telemóvel no Carolina Michaëlis mas parecem muito pouco interessadas nas agressões que ocorrem um pouco mais à frente, nas faculdades."|


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