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ABEL COELHO DE MORAIS
Entrevista. Autor de obras sobre o marxismo heterodoxo, Anselm Jappe esteve em Lisboa para participar num colóquio sobre o Maio de 68 e apresentar o seu mais recente livro consagrado a um dos pensadores que influenciaram a época, Guy Debord
Passados 40 anos sobre o Maio de 1968, o que pode ser hoje uma revolução?
O Maio de 1968 demonstrou que é possível fazer uma revolução fora dos partidos e além do objectivo da tomada do poder. Mas, hoje, por outro lado, praticamente deixaram de existir as realidades que produziram o Maio de 68; por exemplo, já não existe concentração do proletariado. A questão da mudança social coloca-se de outra forma, não sei sequer se ainda se pode chamar revolução. A própria palavra degradou-se num slogan publicitário...
Tendo estudado os autores situacionistas e, em particular Guy Debord, que influenciaram as ideias do Maio de 68, que herança ficou deste período?
A teoria situacionista hoje não pode ser olhada como há 40 anos. Precisa de ser desenvolvida. Isso está a ser feito com a crítica do fetichismo da mercadoria em vários países e por vários autores, mesmo sem filiação directa com o situacionismo. Este pode ser parcialmente utilizado por exemplo numa crítica da sociedade regida por princípios como o da mercadoria e na crítica da ideia pós-moderna de que a realidade é formada por fragmentos que não se encontram ligados entre si.
Até que ponto o situacionismo foi influenciado pelo marxismo?
Na época do Maio 68, em França e noutros países, o peso do Partido Comunista era importante, e foi indispensável fazer um esforço sério para entender que existia toda uma outra leitura possível de Marx, que nada tinha a ver com o leninismo e o estalinismo. Logo na primeira linha da Sociedade do Espectáculo, Debord analisa o espectáculo enquanto mercadoria, baseando-se em conceitos marxistas como a crítica do valor, do dinheiro, do fetichismo e do trabalho, que é importante em Marx, mas estes elementos surgem associados em Debord à utilização de outros conceitos como a luta de classes, o protagonista revolucionário. Mas em minha opinião sem ir suficientemente longe na reformulação do marxismo...
Referiu a questão do protagonista revolucionário. Quando se fala de feminismo, alterglobalização, transsexualidade, estamos perante causas revolucionárias ou formas do espectáculo, do simulacro, da "negação visível da vida", para citar Debord?
Simulacro é um conceito de Jean Baudrillard, não é algo que tenha prendido a atenção de Debord. Este manteve sempre uma perspectiva tradicional do sujeito revolucionário - o povo, o proletariado. Podemos considerá-lo bastante céptico em relação a protagonistas parciais, como as reivindicações feministas ou de outras minorias que, em regra, apenas reivindicam a inserção no sistema existente, nada que vá além da lógica base do sistema. Debord, a partir de 1972, mostrou-se bastante sensível à temática ecológica e crítico do ecologismo político, como o fenómeno dos Verdes, estando entre os primeiros a indicar que a destruição da natureza devido à sociedade espectacular era uma das bases em que se colocava a questão da totalidade.
A ecologia é um actor revolucionário?
A crítica anti-industrial, que existe em vários países na Europa e não só, muita dura face à sociedade industrial, pode num certo sentido reivindicar-se da interpretação de Debord. Em França, por exemplo, está presente na contestação aos organismos geneticamente modificados e aos alimentos transgénicos, de que José Bové e algumas das suas acções são exemplo.
É então um veículo revolucionário?
Creio que na questão ecológica existe um potencial prático mais forte do que noutras situações, em que acaba por se regressar à ideia da distribuição da riqueza capitalista. Com a questão ecológica vai-se mais longe ao pôr-se em causa todo o percurso da sociedade e não apenas a quem esta aproveita. Coloca-se aqui a questão da totalidade. E não se consegue dissociar a questão capitalista de tudo o resto, não se pode falar de capitalismo ecologista, por exemplo, como alguns pensam.
Há uma ligação destes movimentos ao conceito mais geral de alterglobalização. Este movimento encerra algumas das qualidades de 68?
Esse movimento limita-se à crítica de certos aspectos do capitalismo e das práticas neoliberais. É uma crítica parcial concentrada na questão dos mercados financeiros, e falta a ideia de outra vida que seria possível através de uma reformulação global do sistema. É positivo que haja esse interesse pelo que está mal na sociedade contemporânea, mas é necessário perguntarmo-nos em nome de que alternativas e valores se colocam estas críticas.|
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