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por
Mário Bettencourt Resendes
provedor dos leitores
No âmbito do seu magistério, há episódios que exigem, da parte do provedor, um trabalho de investigação apurado e atento. O tema da coluna de hoje é um bom exemplo.
Tudo começou com os 255 caracteres finais de uma notícia publicada no baixo da página 20 da edição do DN de 15 de Fevereiro. O tema da polémica não tem, por sinal, nada a ver com o título da peça ("Socialistas criticam ministra da Educação").
A página é inteiramente dedicada à cobertura da actualidade parlamentar e a notícia aqui em causa relata a reunião do grupo do Partido Socialista. Começa por transcrever as críticas de alguns deputados à ministra da Educação - justificando-se, assim, o título - e acrescenta-se depois uma breve referência a uma intervenção do deputado Vasco Franco sobre corrupção.
Segundo o DN, Vasco Franco "insurgiu-se contra alegados insultos a deputados que tem ouvido de forma generalizada". O deputado considerou que a Assembleia "não pode ficar indiferente aos insultos generalizados de que é alvo, devendo responder institucionalmente, no sítio próprio, que são os tribunais". O jornalista João Pedro Henriques, autor das linhas em análise, recordava, de seguida, que "Vasco Franco foi durante várias legislaturas vereador na Câmara Municipal de Lisboa" e que "foi um dos que votaram a favor da permuta em que a CML deu à Bragaparques metade dos terrenos da Feira Popular (e direito de preferência no leilão da outra metade) em troca dos terrenos no Parque Mayer". O jornalista concluía afirmando que o Ministério Público considerou o negócio "lesivo da autarquia em pelo menos 40 milhões de euros".
Vasco Franco reagiu em carta dirigida ao jornal, com cópia para o provedor, solicitando uma apreciação do caso. No texto afirmava que a notícia "é falsa" e "atenta contra o seu bom nome". E explicava: "Quem acompanhou o caso Parque Mayer na comunicação social sabe que a acusação está formulada, não me afectando em nada, e sabe também que eu não votei a concessão do direito de preferência referido e que o prejuízo que o Ministério Público considera ter existido se deve à aprovação de um loteamento que teve o meu voto contra e ao reconhecimento de um direito de preferência que não foi aprovado pela Câmara nem pela Assembleia Municipal."
Na edição de 22 de Fevereiro, o DN publicou, na íntegra, ao alto da página 19, a carta do deputado, complementada por um breve nota do jornalista João Pedro Henriques, reconhecendo que "é verdade que Vasco Franco não votou pelo direito de preferência da Bragaparques e pelo erro o DN pede desculpa; é verdade também que Vasco Franco votou a favor da permuta que agora está a ser judicialmente escrutinada".
O que está, verdadeiramente, aqui em causa? Em primeiro lugar, um episódio de "jornalismo interpretativo" que explica a indignação do deputado. De facto, ao fazer uma referência ao caso Bragaparques como suposto enquadramento a uma intervenção de Vasco Franco contra as acusações de corrupção aos políticos, João Pedro Henriques, fosse essa ou não a sua intenção, abre caminho para que os leitores possam inferir alguma falta de legitimidade, da parte do deputado, para se pronunciar sobre o assunto. Ora, tanto quanto se apurou, Vasco Franco não é arguido no caso Bragaparques, ao contrário do que acontece com outros responsáveis (ou ex-responsáveis) da autarquia lisboeta.
Da parte do deputado, há, no seu desmentido, uma habilidade epistolar que, a ser evitada, teria contribuído para um melhor entendimento sobre o que se passou. De facto, e conforme investigou o provedor, Vasco Franco votou contra a concessão do direito de preferência referido, mas votou a favor da permuta, como reafirmou o jornalista. Ora, no seu texto, o deputado ensaia uma redacção que passa ao lado desse segundo voto.
Enfim, um caso que poderia ter sido evitado com um pouco mais de ponderação prévia por parte do jornalista. O enquadramento e a interpretação das notícias, práticas recomendáveis no jornalismo moderno, devem ser claros e bem sustentados.
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