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por
João Miguel Tavares
jornalista
jmtavares@dn.pt
O sinal mais sintomático da falência do PSD enquanto partido não é tanto a assustadora sucessão de líderes incompetentes, mas a absoluta incapacidade de encontrar uma alminha decente com vontade de tomar conta da casa. Os nomes correm pelos jornais como se estivéssemos numa daquelas reuniões de condóminos em que ninguém quer ficar com a responsabilidade de pagar a luz da escada ou a vistoria ao elevador. No domingo, o Público começava a sua peça sobre o actual estado do partido de modo exemplar: "Manuela Ferreira Leite está cada vez com menos espaço para recusar uma candidatura à liderança do PSD." Repararam bem? Falta-lhe espaço "para recusar." Formulação mais clara não há: Ferreira Leite tem tanto desejo de mandar no partido como eu tenho de arrancar um dente sem anestesia. A questão está em saber como se chegou aqui. Como é que liderar o PSD passou a ser uma profissão tão popular quanto, sei lá, desentupidor de canos?
Da mesma forma que um relógio parado está certo duas vezes por dia, o desastrado Luís Filipe Menezes acertou pelo menos nisto: há muita gritaria de militantes VIP, muita táctica dos "barões", muita conspiração em restaurantes com guardanapos de pano, mas muito pouca vontade de dar o corpo ao manifesto pelo PSD. Se essa atitude se entende no início daquelas desagradáveis travessias do deserto, é praticamente incompreensível na situação actual, em que o País está a braços com uma crise económica séria e já não há jogging que sustente a popularidade de José Sócrates. Mesmo não sendo fácil para o PSD derrotar o PS em 2009, há hoje uma janela de oportunidade que não havia há um ano - o que só torna ainda mais incompreensível que quem tem peso continue na dança do (não) avança.
No momento em que escrevo, disponibilizaram-se para liderar o partido Pedro Passos Coelho, que é uma incógnita sem currículo que o recomende, Mário Patinha Antão e José Pedro Aguiar-Branco, ambos figuras de segunda linha. Rui Rio? Está em silêncio. Manuela Ferreira Leite? Em contemplação. António Borges? Lá longe. Miguel Cadilhe? A assobiar para o ar. Alegadamente, é preciso pensar muito, por questões de timing. Mas a verdade é que a "falta de timing", como o PSD a entende, é apenas sinónimo de falta de coragem política e de uma verdadeira visão alternativa para o País. Nada disto abona a favor de um PSD dividido entre gente competente que não se quer queimar e gente disposta a queimar-se mas que não alcança os mínimos de competência. Tudo isto seria cómico, não fosse o partido fazer falta ao regime. Infelizmente, faz. E é por isso que convinha que o PSD deixasse rapidamente de ser uma versão portuguesa dos Marretas, com uma data de tipos a fazer palhaçadas em palco enquanto os veteranos passam o tempo a mandar bocas, confortavelmente sentados no camarote.
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