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SER 100% VERDE POR UM DIA

por

RITA CARVALHO (Texto)

RODRIGO CABRITA (Foto)  

No rádio, o locutor da TSF anuncia o tema do fórum matinal. "Devem ser criadas portagens à entrada de Lisboa?" A pergunta deixada aos ouvintes vem a propósito de mais um estudo do LNEC sobre a terceira travessia do Tejo e não podia ser mais pertinente. Rodeada de carros por todos os lados, em mais uma manhã infernal de trânsito na auto-estrada que liga Cascais a Lisboa, dou por mim a pensar se seria esta a forma de acabar de vez com o martírio que enfrento sempre que tenho de levar o carro para o trabalho.

O dia está chuvoso. A chuva miudinha não justifica o limpa pára-brisas no modo rápido, mas tapa-me a visibilidade se o mantenho desligado. O pára-arranca surge logo nas portagens de Carcavelos e tem muito de pára e quase nada de arranca. Saí de casa há 20 minutos, pouco depois das 09.00, e já estou praticamente parada. Acidentes, filas enormes, congestionamentos em todas as entradas da cidade.... vão ditando as estações de rádio nos balanços do tráfego feitos de meia em meia hora. O costume.

O meu stress miudinho vai-se pronunciando. Curiosamente, contrasta com a naturalidade dos que viajam ao meu lado. Há quem leia o jornal, retoque a maquilhagem, tome o pequeno-almoço, e até arrisque ligar o portátil para preparar a reunião da manhã. Muitos, mesmo muitos, aproveitam a demorada viagem para pôr a conversa em dia ao telefone. Há que fazer render as três horas gastas, em média, por dia, a percorrer o caminho entre casa e o trabalho. E os muitos euros de combustível, portagens e estacionamento.

A experiência matinal serve para provar isso mesmo. Que não me compensa levar o carro para o trabalho. Já nem arrisco argumentar com questões ambientais, que milhares de carros apenas com uma pessoa poluem muito mais do que um comboio cheio de gente. Cinjo-me às evidências. É mais demorado (uma hora e 22 minutos), mais stressante, e muito mais caro: a coisa não fica por menos de 15 euros.

Ontem, a viagem foi bem mais agradável. Saí de casa às 09.08, exactamente à mesma hora de hoje. A chuva ameaçava cair, mas ainda consegui percorrer a pé os dez minutos até à estação de comboios de Cascais sem me molhar. É a ginástica matinal, acelerada diariamente conforme a dimensão do atraso. À noite vou de boleia ou apanho o buscas, o autocarro. Ainda tive tempo de beber um café antes de entrar no comboio que saiu às 09.32.

Nos trinta minutos que ligam a estação de Cascais à do Cais do Sodré aproveito bem o tempo: leio, ouço música, folheio os jornais gratuitos, troco umas palavras com alguém conhecido que viaja na mesma carruagem. Ao meu lado, há quem exercite a mente num jogo de sudoku ou esboce desenhos num moleskine. A viagem com vista de mar e rio é inspiradora, convida à meditação. Mas a hora e o cansaço acumulado de uma semana de trabalho arrastam muitos para uma sesta até Lisboa.

Ao som do alarme que toca à chegada à estação terminal, os ensonados despertam, meio estremunhados. Apertam--se os casacos para a chuva e voltamos ao ritmo acelerado de uma manhã já em final de hora de ponta. O metro até ao Marquês de Pombal é rápido, dá direito até a um lugar sentado, e em 15 minutos estou à porta do jornal. Às 10.25, uma hora e 17 minutos depois de ter saído de casa, estou prestes a começar mais um dia de trabalho.

Local de trabalho

Ainda é cedo, a redacção está meio adormecida, e o momento é propício para fazer o teste. Carla Verdasca, do projecto EcoCasa, da Quercus, está no DN para analisar o potencial de melhoria dos comportamentos ambientais da redacção. A avaliar pela quantidade de computadores que ficaram ligados ou em modo stand by desde a noite anterior concluo rapidamente que a auditoria não vai ser simpática e que aqui ainda se pode fazer muito por um ambiente melhor.

Debaixo das secretárias, embrenhada nos fios dos computadores, e de medidor de consumos em punho, Carla conta 60 monitores em stand by, 41 computadores ligados sem estarem a ser utilizados, muito poucos totalmente desligados. Também há consumos energéticos off power, ou seja, nos computadores que não estão a desempenhar a sua função nem dão indicação de estar a consumir, mas mesmo assim gastam energia.

Contas feitas, se na enorme redacção do DN fossem eliminados os consumos em stand by, off power e dos computadores ligados durante a noite (aplicando uma tomada eléctrica com interruptor corta-corrente), pouparíamos, por ano, 1742 euros e 7763 quilos de CO2 emitidos para a atmosfera. O mesmo é dizer: pouparíamos ao mundo as emissões de 55 450 quilómetros percorridos por um automóvel.

Se no poupar é que está o ganho, muito haveria a ganhar se o consumo de papel fosse mais moderado e todos contribuíssemos para o reciclar. Das três impressoras da redacção saem todos os dias três resmas e meia de papel impresso ou fotocopiado. As folhas chegam numas caixas verdes a indicar que são feitas com papel reciclado, mas depois de utilizadas não voltam a entrar no circuito da reciclagem. Isto porque nos caixotes de lixo individuais não se separa o papel dos outros resíduos... Só os jornais e outros grandes montes de papel são depositados numa espécie de ecoponto colocado à entrada da redacção, ou levados pelas funcionárias da limpeza para o contentor da garagem, depois recolhido por uma empresa de reciclagem. Estimando uma percentagem de 20% do papel reciclado, ficam por reciclar 2549,7 quilos de papel por ano, equivalendo a 1,98 toneladas de CO2.

Agência de viagens

Está na altura de marcar férias. E hoje vou em busca da oferta turística na área da natureza. Aproveito a hora de almoço para entrar numa agência de viagens, uma das maiores a nível nacional, e peço indicações sobre ecoturismo. O funcionário não estranha a questão e apressa- -se a sugerir uma série de destinos com estas características: proximidade com a natureza, ambientes pouco explorados e que exigem dos turistas algum espírito de aventura e pouca disposição para estar na praia de papo para o ar.

Costa Rica, Equador e outros países da América Latina estão entre os destinos que se ajustam a esta procura, que representa cerca de 5% do turismo mundial e tem um enorme potencial de expansão. Mas é o Brasil que se vende mais, acrescenta o funcionário, referindo os ecoresorts da Praia do Forte (na Baía) e de Fernando de Noronha, uma reserva natural.

Neste santuário ecológico, a riquíssima fauna e flora e a categoria de Património da Humanidade exigem restrições para preservar o equilíbrio ecológico do arquipélago. Não se pode pescar, recolher conchas, corais e mergulhar nalguns locais. A conservação do espaço exige também que seja cobrada uma taxa ecológica diária de 34 dólares a cada turista. Os preços da diária nas pousadas rondam os 200 euros. Por isso, só a classe alta se pode dar ao luxo de vir apreciar estas raridades.

E ir para fora cá dentro? Em Portugal, o turismo de natureza ainda não está bem estruturado, mas basta fazer uma pesquisa na Internet para encontrar empresas que organizam descidas de rio, percursos pedestres ou passeios de observação de aves. Um tipo de turismo que não passa pelas agências de viagem, explica o meu interlocutor, porque os apreciadores da natureza preferem pesquisar e organizar o seu próprio passeio.

Os comportamentos ambientais no sector do turismo é que ainda deixam muito a desejar. Tirando a regra da substituição das toalhas - aplicada já em muitos hotéis - os consumos de energia continuam a ser elevadíssimos e a água de piscinas e jardins raramente reutilizada. Pior: muitas vezes é o próprio turista a pôr em risco o que deseja apreciar.

Se quiser fazer uma viagem curta, por exemplo até Paris, e ser ambientalmente responsável, é bom preparar-me para alguns incómodos. O preço da viagem de comboio e de avião até é semelhante. Mas se viajar no Sud-Express polui apenas 182 kg de CO2, só chego lá 21 horas depois de ter saído de Lisboa. O avião, por sua vez, deixará um rasto de poluição no ar - qualquer coisa como 980 quilos de CO2 -, mas põe-me lá em duas horas e meia.

Supermercado

Fim do dia, hora de passar no supermercado antes de ir para casa. O jantar hoje quer-se o mais ambientalmente responsável, por isso, vou tentar comprar uma refeição só com produtos biológicos. E vou conseguir. Pago mais mas consigo. A ementa é simples: sopa, carne com esparguete, pão, sobremesa e vinho. No El Corte Inglés não tenho de me esforçar para discernir os produtos biológicos dos tradicionais. Na zona dos frescos, há prateleiras para cada categoria, bem como na carne e pão. O vinho é o mais difícil de encontrar, mas depois de consultar o colega, o funcionário lá me sugere um tinto de Lafões. "Mas não garanto que seja bom. Não tem conservantes", avisa, lamentando que a lei da agricultura biológica não esteja regulamentada.

No Continente, sou obrigada a empurrar o carrinho durante mais tempo para encontrar o que procuro. Quando pergunto pelos produtos biológicos, um funcionário encaminha-me para uma secção quase à saída da loja onde estão também produtos naturais e dietéticos. Aí pego num pacote de esparguete. À pergunta se têm cereais com garantias de que o milho não é transgénico, o mesmo funcionário, até aí bastante prestável, responde com um sorriso: "Ui, isso não sei..."

Na secção dos frescos, já não encontro fruta biológica. "A variedade costuma ser grande mas a quantidade não", explica o senhor que pesa a fruta, apontando na direcção do stand biológico, quase vazio. Azar, cheguei tarde.

A diferença de preços entre os produtos biológicos e os outros tem vindo a atenuar-se, explica o El Corte Inglés, o primeiro a apostar neste mercado. Mas, mesmo assim, ainda fica mais caro optar por alimentos produzidos sem recurso a químicos e com características tão específicas. Quando me sento à mesa à hora do jantar percebo porquê. O hambúrguer que tenho no prato veio da Herdade do Freixo do Meio, é biológico, e tem mesmo um sabor especial. Como as tangerinas que deixam um forte aroma na cozinha.


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