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um fumador fora da lei. Um jornalista do DN passou por várias situações de teste à nova lei do tabaco. Fumou em sítios onde não é suposto, tentou noutros, mas não obteve autorização, perscrutou olhares indignados (poucos) e obteve a compreensão de outros ao vício. Uma reportagem que o levou até ao Entroncamento, que o fez vestir de 'doutor' e que o apanhou no meio da multidão
O que torna mais chato esta coisa de fumar em sítios proibidos é que não há cinzeiros para apagar os cigarros. A primeira vez que me aconteceu foi no Macy's de Nova Iorque, terra outrora amante das liberdades mas onde as medidas higienistas e o "proibir-proibir" têm hoje areópago firmado. Habituado a fumar em tudo quanto é lado, menos no meu quarto, na cama do hospital e na Igreja, lá estava eu no piso sete, ou coisa que o valha, de cigarro aceso. Meio minuto depois, ainda o cigarro não virara beata, o diligente funcionário da segurança, de olhos esbugalhados, atravessava meia sala para me avisar de que ali era proibido fumar. Educadamente, pedi desculpa e perguntei onde é que podia apagar o cigarro. "Não temos, aqui é proibido fumar", dizia o atarantado de serviço. "Ok, se é proibido e alguém se esquece, onde é que se pode desfazer o ilícito?", perguntei eu, tentando atalhar esta conversa de surdos. O rapaz olhou à esquerda e à direita, meteu-se lá por um saguão adentro e veio com um pires de chávena de café, onde eu depositei o cigarro, por essa altura já praticamente fumado. Quando aqui na redacção do DN me sugeriram ir fumar para sítios proibidos foi esta a primeira coisa que me assolou o juízo.
Como nunca se deve falar do que se não sabe, o primeiro sítio onde me lembrei de testar a paciência dos meus concidadãos foi mesmo no meio da Redacção. Aqui é proibido fumar - o que eu aplaudo - vai para quatro anos. A coisa, na altura, foi feita com pompa e circunstância, já que se sujeitou a votação de todos os utentes daquele espaço. Ganharam - não por muitos - os proibicionistas, e nos primeiros tempos a medida contribuiu realmente para melhorar o ambiente. Pior foi depois quando o ar condicionado, ou a ventilação (sinceramente nunca percebi a diferença) começou a avariar lentamente. Mas isso agora não interessa nada.
Então, como eu estava a dizer, a meio da tarde pego num cigarro e acendo-o mesmo ao centro da Redacção. O primeiro reparo veio de um camarada da chefia que, certamente absorto nas suas responsabilidades, me disse para "acabar o cigarro que a seguir temos uma reunião". Continuo, e uma jornalista atira-me um rápido "estás-te a passar", em forma elegantemente interrogativa. Mais à frente uma outra acode com "ó Márcio, isso não se faz". Ainda tive tempo de ouvir "é uma vergonha" e um "cheira-me aqui a tabaco" antes que alguém desferisse o golpe fatal: "É pá, não vão nessa, o gajo está a trabalhar para o 'na pele de'". Acabou-se a farsa.
Mais frustrante foi a passagem pelo corredor do andar onde se concentra a Administração da empresa. À hora a que lá passo, cigarrinho bem aceso na mão e baforadas mais exageradas do que as que normalmente expilo, está tudo fechado nos gabinetes. Resisto à tentação de bater à porta de um deles, a minha ideia não é provocar.
Vamos então lá prò terreno.
Vivò Benfica!!!
A primeira ideia que nos passou pela cabeça, a mim e ao Vasco - o repórter fotográfico que me acompanhou neste empreendimento -, foi ir andar de táxi a ver se me deixavam fumar. A logística da coisa era complicada, mais do que qualquer uma das que posteriormente montámos, pelo simples facto de que o Vasco não podia esconder-se, tinha que estar mesmo ao meu lado. Sugeri-lhe que trocasse as profissionalonas maquinetas que costuma usar e pegasse na minha digital comprada nas Canárias, mais maneirinha e com cara de que nenhum fotógrafo a sério ousaria tocar numa coisa daquelas. E assim foi.
Eu estava com pouca fé. "Vai ser complicado arranjar um taxista que me deixe fumar", digo. O Vasco, que é um rapaz com idade para ser meu filho, lançou um "é canja, vais ver".
O enquadramento era ir jogar ao Casino de Lisboa. À hora em que apanhámos o carro no Marquês estava o Benfica a ganhar dois a zero ao Sporting, no jogo da semana passada. Quer eu quer o Vasco somos do "Glorioso" e o taxista em causa alinha pelas mesmas cores. Com o calor das luzes dos festejos, pedi ao taxista para fumar um cigarro e ele aquiesceu na hora. "É só duas passas, depois apago", prometo. "Fume lá à vontade, então já que acendeu..."
O que se segue pertence à história. Durante o jantar, que durou mais ou menos o tempo da segunda parte do jogo, os alvalácticos deram a volta ao texto. De regresso à Redacção, novamente de táxi, o Vasco tem uma ideia. "Agora eu faço de sportinguista e tu continuas do Benfica, estás com uma grande cachola e eu vou-te gozando e tiro-te fotos", alvitra. Apanhado o táxi, não é que fulano também era benfiquista? Se calhar é condição para obter a carteira profissional, não sei, mas o que é facto é que o meu mau humor e as risadas do Vasco (sportinguista de faz-de-conta) chegaram e sobraram para que o homem me deixasse fumar um cigarrinho até ao fim. Está feito.
A primeira proibição
No dia seguinte o enfoque era completamente diferente. Tratava-se de marcar um jantar num restaurante de primeira classe onde não fosse permitido fumar. Desta vez, meti-me na pele de um empresário português dos petróleos, com fortuna feita nos offshores do Golfo da Guiné. Vivia por lá, vinha cá de visita, e essa coisa de não fumar após degustação de lauto petisco, enquanto se faz fé num licor da Escócia, era coisa a que o nababo ainda não se habituara, mais a mais porque lá por onde andava a medida "civilizadora" era mais branda. O primeiro problema foi encontrar um restaurante 'cinco estrelas' onde seja proibido fumar. Acreditem, não há muitos.
Enfarpelado à maneira, fato escuro e gravata de oferta, a estrear, fui ao Valle Flor, espaço de grande brio no Hotel Pestana Palace, em Lisboa. Cheguei acompanhado, e à porta fui avisando que um fotógrafo de revista me tinha pedido para me ir lá tirar o retrato, no âmbito de uma reportagem mais alargada que estava a fazer, centrada na minha pessoa. Obtida uma autorização a modos que tácita (nem me disseram que sim nem que não), fui jantar um prato de autor de altíssima categoria e de parco sustento, que me aproximou horas depois de uma perna de frango assado que havia no frigorífico lá de casa. Chegado ao momento do cigarro, peço o cinzeiro que não via em cima da mesa e o chefe de serviço avisou: "Aqui não se pode fumar, todo o hotel é livre de fumo", asseverou. Mais tarde fiquei a saber que nos quartos é cada um por si e a gerência fecha os olhos, mas ali é que não. Argumentei com o diferente modo de ver civilizacional a que estava habituado, mas dali não saí. Foi o único sítio dos oito que experimentei para elaborar este trabalho onde a firmeza da proibição venceu argumentos ou ratice.
É que de resto o pandemónio é a regra. No comboio descendente do Entroncamento a Lisboa, que apanhei com o Vasco no dia seguinte, talvez tenha visto um olhar mais incrédulo do passageiro do lado, mas foi tudo o que ocorreu quando, a olhar para o portátil, me "distraí" e fumei mais de metade de um cigarro.
No tasco de esquina, ainda no Entroncamento, onde fui beber uma Água das Pedras, pedi à empregada com sotaque mineiro para fumar um cigarro. "É só enquanto bebo a água, depois vou lá para fora", argumentei. "Esteja à vontade", sublinhou a funcionária, e aqui o grafo sem fazer jus ao açúcar do (des)a- cordo fonético. Chegado aqui, começo a ver o filme: o que interessa mesmo é pespegar o letreirinho na porta, como a lei proibicionista manda, o resto logo se vê e a malta cá vai andando.
Agitação sim, consequências não
A terceira e última fase do empreendimento de que aqui se dá conta passava por ir fumar para locais públicos de grande agitação. Entre o acaso e o critério, calhou a vez ao Metropolitano de Lisboa, ao centro comercial Amoreiras e à Loja do Cidadão.
A experiência na Loja do Cidadão é talvez a mais bizarra de todas as que me sujeitei. Atulhado dos mais variegados povos, o local passou a ser tudo menos um sítio prático para tratar de assuntos correntes. "Com tanta gente alguém me há-de chamar a atenção, mal eu puxe do cigarro e do isqueiro", digo eu para os meus botões. Mas não. A surpresa começava a ganhar foros de escândalo. Não há por aí um cidadão que me chame a atenção, me insulte? Não há.
Meto-me no metro e o forrobodó continua. Aqui até se compreende a indiferença. As pessoas querem é sair dali depressa, rumo aos seus afazeres ou ao lar (é hora de ponta da tarde), e por pouco não me atropelam quando mesmo à saída da carruagem puxo logo de um cigarro. Fumei vários: na plataforma, mais à frente, mais atrás, à saída e esse mesmo que aí está na foto de abertura. Ninguém se meteu comigo.
A última fase era talvez a mais difícil. Às cinco em ponto dessa tarde entro nas Amoreiras e acendo um cigarro. Note-se que a ideia é que não vejam o Vasco andar por perto, senão ainda julgam que andamos a fazer filmes ou coisa que o valha. O companheiro lembra-se então de pedir ajuda à 'Loja do Jornal', onde uma menina simpática acolhe quem quer pôr classificados nas páginas dos títulos do grupo empresarial a que o DN pertence. "Deixe-me esconder aqui para tirar a foto", pede. Ela achou "o máximo" e o sorriso aberto fez-lhe espelhar mais o piercing que usa numa das narinas. A fotografia não ficou uma obra de arte, eu - mais uma vez - não fui importunado (ainda vi uma lojista a olhar de viés, mas não teve consequências) e o que se safa desta história é que o Vasco ficou com o telefone e o e-mail da jovem.
E é tudo.
O que não aconteceu
Posso dizer que, no final, fiquei surpreendido por nunca ter sido multado. As eventuais consequências legais da minha "aventura" tinham sido, aliás, uma das preocupações iniciais quando preparei o trabalho, o que me levou a consultar o advogado da empresa e a garantir que esta se responsabilizava pelos montantes das multas. É que não são pêra-doce - ser "aliviado" em 500 ou 1000 euros por um agente da autoridade não é difícil. Tive sorte? Se calhar.|
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