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por
Fernando Madaíl
Projecto para Alcântara em tons de azul que lembravam os azulejos
NOUVEL LÊ PESSOA
"Tenho sempre livros à mão", admitia Jean Nouvel na entrevista para o número monográfico sobre a sua obra da revista japonesa (mas com edição bilingue) A+U - Architecture and Urbanism, editado em Abril de 2006. "Um dos que me fascinaram recentemente intitula-se O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Tornou-se um verdadeiro livro de cabeceira. Mas estou aborrecido porque o meti numa mala e o perdi. Tenho de o voltar a comprar. É um livro encantador: tanta introspecção metafísica num homem que tem uma vida vulgar parece-me incrível."
A relação entre o arquitecto francês que ganhou, aos 62 anos e ao fim de cerca de 200 obras espalhadas por quatro continentes, o Prémio Pritzker (com que Álvaro Siza foi galardoado em 1992!) e Portugal não se limita, pois, ao projecto de urbanização que Jean Nouvel concebeu para Alcântara-Mar, no tempo em que Pedro Santana Lopes também convidou Frank Gehry e Norman Foster.
O autor de obras que marcaram a paisagem de Paris e de Barcelona diz que o seu poeta dilecto é René Char e que gosta do cinema de Godard, do seu grande amigo Wenders e de Lynch. Assume que é um hedonista, gosta de boa comida e de sair à noite, adora nadar e ver jogos de râguebi - e, também, de "não fazer nada". Entretanto, pode ler, por exemplo, Exercícios de Estilo, o célebre livro em que Raymond Queneau narra a mesma história simples de 99 formas diferentes e que é quase uma metáfora do trabalho do arquitecto que assinou o Instituto do Mundo Árabe e a renovação da Ópera de Lyon, os apartamentos Nemausis e a extensão do Museu Rainha Sofia, o centro de conferências e música de Lucerna e a Torre Agbar.
O seu percurso, em que se sucedem a busca das formas e a procura dos contrastes em criações que tanto se destacam na silhueta da cidade como se harmonizam com o sítio, em edifícios que têm superfícies espelhadas ou que mudam de tom conforme a posição do sol, enquanto outros são opacos ou forrados com revestimento vegetal, obriga Nouvel a admitir que é um arquitecto fascinado pela luz.
E, com a mesma naturalidade com que fala dos prazeres da vida, evoca a Catedral de Chartres e algumas fantásticas construções românicas, a arquitectura do ferro dos finais do século XIX e a casa de vidro que Pierre Chareau edificou em Paris, as influências de Le Corbusier e de Mies van der Rohe, as casas de chá japonesas e a vila imperial de Katsura.
Agora, espera-se pelo Louvre do deserto (ou das areias) e pela colina em alumínio da Filarmónica de Paris. E, também, se irá para a frente aquele espaço, revestido em azul como os azulejos, que projectou para Lisboa. Embora também seja possível que tudo se resuma à repetição do seu célebre desenho da Torre Infinita, que partia de uma base sólida e se perdia, qual Torre de Babel, no espaço - e que, obviamente, nunca foi edificada.
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