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por
Adriano Moreira
professor universitário
Nos fins da década de 80 do século passado, o resistente e sobrevivente Deng Xiaoping lançou as propostas e fundamentos para a afirmação da China como uma potência responsável na cena internacional, por estar ainda dominada pelo bipolarismo dos pactos militares e pelo conflito ideológico entre as democracias ocidentais e as democracias populares marxistas, entre as quais o regime chinês se definia como identidade específica e estratégia própria.
Paulatinamente, o discreto dinamismo de Xiaoping foi sendo aclarado pela clara ostentação de objectivos e de capacidades. Um dinamismo de crescimento económico, a preservação da paz e da estabilidade no espaço de influência imediata, mas, ao mesmo tempo, sem ceder em nenhum dos interesses permanentes do país, sem transigir em questões de soberania, sobretudo em face dos países responsáveis pelos chamados tratados desiguais, e portanto vigilante no que toca às fronteiras históricas do território considerado nacional.
Faz parte da política de afirmação fornecer ajuda respeitável às vítimas das tragédias humanas que atingiram a Ásia nos últimos anos, mas também procurar mediar a questão nuclear suscitada pela Coreia do Norte, recorrendo ao multilateralismo, dando mostras credíveis de pretender ajudar a reordenar a ONU para serviços da paz e desenvolvimento sustentado mundial.
Foi pelas malhas da globalização económica que abriu caminho no sentido de conquistar mercados, de se garantir matérias-primas e fontes de energia não renováveis, de fortalecer a presença em direcção à Ásia Central, à África, e à América Latina, invadindo áreas e territórios que os ocidentais consideraram de presença exclusiva durante séculos.
Parece um facto irrecusável a necessidade de considerar a China como um parceiro colocado no mesmo e igual plano dos EUA, da Rússia e da União Europeia, em tudo o que toca à reinvenção da governança mundial, suscitando alguma inquietação no que respeita à sua capacidade militar.
E não faltam matérias para essa inquietação, designadamente o que diz respeito ao futuro político de Taiwan, e à inevitável necessidade de redefinir os vários Pacíficos em que aquele oceano será politicamente organizado.
A questão dos direitos humanos desafia constantemente a atenção das instâncias internacionais e da opinião pública mundial, os movimentos separatistas internos não são descuráveis, a sociedade civil ganha identidade e protagonismo à medida que a riqueza cresce e uma classe média desponta, e a nova geração de universitários anuncia os próprios valores e paradigmas.
O objectivo de conciliar o crescimento económico com a estabilidade do regime é desafiado pela natureza das coisas.
Por isso, se Tiananmen ficou como um sinal dramático do conflito entre o conservadorismo político e a mudança da sociedade, também os movimentos de apoio aos separatismos internos, em que o Tibete avulta, determina a reacção violenta, agora mais uma vez em exercício.
O Dalai Lama do Tibete tem sido um mensageiro mundial da paz e reconciliação, para além da destruição desmedida que foi causada pela invasão chinesa em 1959, uma atitude consagrada no Ocidente pela atribuição do Prémio Nobel.
Mas a autenticidade ocidental nesta questão tem sido muito discreta.
Foi necessária a defesa da concorrência leal nos mercados para que a crítica às condições dos trabalhadores na China aparecesse a exigir respeito pelos direitos sociais.
O mesmo não aconteceu quando do massacre de Tiananmen, que orientou para as discretas inquietações em privado, da parte de líderes ocidentais ao visitar Pequim.
A atitude afoita que reinventou e lançou o protectorado para o Kosovo vai continuar a semear inspirações separatistas em vários lugares, talvez presentes nesta insurreição dos tibetanos.
Mas essa criatividade vai seguramente ser refreada, mesmo no Conselho de Segurança, se a questão chegar à agenda. O poder tem uma relação desequilibrada entre a arrogância e a prudência, dependente da identidade do agressor.
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