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2007, O PIOR DE DOIS EXTREMOS CLIMÁTICOS

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RITA CARVALHO  

O mais seco dos últimos cinco anos e o sexto de seca consecutiva na Austrália. No México, foi o ano das piores inundações de sempre. Em Moscovo, foi aquele em que as temperaturas subiram pela primeira vez aos 30 graus num dia de Maio. 2007 foi assim: mostrou o que de pior pode acontecer quando os fenómenos climáticos se extremam. Portugal não fugiu a este (aparente) desgoverno do clima: por cá sentimos o impacto da seca nos meses de Inverno e da chuva intensa nos de Verão. Isto é prova suficiente de que o clima já está a mudar como prevêem os cientistas?

Adérito Serrão, presidente do Instituto de Meteorologia, reconhece as reticências de alguns meteorologistas em assumir que há mudanças no clima. Até porque, por definição, o clima possui sempre alguma variabilidade intrínseca e só se deve falar em mudanças climáticas quando estão em causa alterações manifestadas ao longo de várias décadas. "Tendemos a ser muito conservadores e apontamos sempre como explicação para o que acontece a variabilidade do clima", afirma ao DN. Mas é preciso mudar o discurso, admite. "A realidade está a obrigar-nos a isso, pois já estamos para além da mudança climática."

Até porque as "evidências" - é a palavra utiliza- da - parecem indiscutíveis: "sobreaquecimento em relação ao passado; tendência dos fenómenos extremos registada nos últimos 30 anos; recorrência cada vez maior destes fenómenos". Um exemplo: ondas de calor como a que vivemos em 2003, dizem os modelos, só deveriam ocorrer uma vez em 500 anos. Agora os modelos dão uma recorrência muito maior.

Se 2007 encerra a segunda década mais quente de que há registo (1998-2007), a primeira foi a década anterior. O ano passado foi ainda aquele em que o gelo do Árctico atingiu o mínimo histórico: só num ano perdeu uma superfície duas vezes igual a Espanha.

Essa tendência é apontada nos cenários do Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas, grupo de peritos que traçou os impactos da evolução do aquecimento global. E mais fenómenos extremos, como o aumento da temperatura, das ondas de calor, das secas e dos incêndios e, por outro lado, episódios de chuva mais intensos e devastadores.

A responsabilidade do homem neste agravamento dos fenómenos climáticos é apontada pelo painel como uma causa altamente provável. Sobre isto, Adérito Serrão diz haver já "consenso científico". Por isso, mais do que discutir o que vai acontecer e como se pode evitar o que aí vem, há que trabalhar ao nível da adaptação, para que episódios extremos como as recentes cheias de Lisboa, não façam estragos tão devastadores. A nível técnico, há que aperfeiçoar os sistemas de monitorização (cheias ou secas, por exemplo) e de alerta para avisar atempadamente as populações. A nível psicológico, diz Adérito Serrão, "temos de habituar-nos a viver com normalidade dentro da anormalidade que nos espera".|


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