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ISABEL LUCAS
Um dos melhores concertos dos últimos anos
Cantou, dançou, tocou, falou, disse poemas em tom de oração e outros num registo de protesto, elogiou a música portuguesa, sorriu muito e no fim agradeceu uma "noite memorável". Quem o viu - e foram cerca de nove mil - não vai esquecer aquele que foi um dos melhores concertos dos últimos tempos em Lisboa.
Aos 73 anos, depois de 15 sem sair em tournée, Leonard Cohen apresentou-se no Passeio Marítimo de Algés de fato escuro e chapéu, figura central num palco de cortinas brancas que iam mudando de tonalidade de acordo com as músicas. Cenário minimal para um espectáculo que para ser inesquecível não precisou de mais do que da voz cada vez mais suja e profunda do escritor/poeta/cantor e compositor e de uma banda e coro irrepreensíveis.
Eram nove em ponto quando o palco se encheu num dia ainda sem noite e soaram os acordes de Dance me. Um clássico a abrir cerca de duas horas e meia de música em tudo inovadora em relação aos discos que a apresentaram, já tantas vezes tocados, do senhor Cohen. Isso já descontado um intervalo de 20 minutos escrupulosamente cumpridos e que, como nos velhos tempos, dividiu este concerto em lado A e lado B. Com um sorriso rasgado, dando espaço a todos os músicos que o acompanhavam para brilharem em solos sem nada para pôr defeito nem excesso de preciosismo, Leonard Cohen passou revista a toda a sua carreira de mais de 40 anos numa toada que muitas vezes esteve próxima da liturgia e perante uma audiência com uns bons anos mais, em média, do que aquela que uma semana antes encheu o mesmo espaço no Alive Festival.
Do alinhamento constaram os inevitáveis Suzanne e Hallelujah, que o público acompanhou como pode - "cantam muito bem", disse a dada altura Cohen -, Everybody Knows; Hey, That's No Way to Say Goodbye; Boogie Street (num dueto com Sharon Robinson)-; Take This Waltz; I'm Your Man (talvez a canção mais celebrada da noite). Leonard Cohen ia cantando e falando com o público, apresentou várias vezes os músicos que o acompanhavam e ofereceu um encore de cerca de vinte minutos depois de ter saído do palco a saltitar. Não demorou a voltar com So Long, Marianne e interpretar em tom de oração com fundo de harpa If It Be Your Will, acompanhado pelas vozes das Web Sisters. Foi outro dos momentos particularmente intensos em noite onde não faltou emoção e onde cada pessoa parecia procurar o melhor adjectivo para classificar o que ouvia.
First We Take Manhattan e Sisters of Mercy (esta já depois de Cohen ter saído novamente de palco) ameaçaram encerrar a noite, mas foi ao escutar Closing Time que se levantaram os braços em jeito de despedida. Falso alarme. Ainda havia para servir I Tried to Leave You. Foi quando Cohen mandou juntar os que o acompanhavam para com ele cantarem em coro.
Perfeito. Só um lamento: Leonard Cohen tinha merecido uma sala.
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