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por
Anselmo Borges
padre e professor de Filosofia
No século VIII, no quadro da ameaça militar e religiosa do islão a Bizâncio, a tradição cristã viu-se confrontada com a pureza radical do monoteísmo islâmico e a sua proibição das imagens. Os imperadores bizantinos mandaram destruir as imagens e os seus defensores foram perseguidos como idólatras. Embora esta luta dos iconoclastas tenha acabado com a vitória dos iconódulos (veneradores das imagens), pois Jesus Cristo é a imagem visível de Deus, nunca deveria esquecer-se que Deus é infinitamente transcendente e, se o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, Deus não é à imagem do Homem.
Diz-se perante certas imagens: vale mais uma imagem que milhares de palavras. Pense-se, por exemplo, naquelas imagens televisivas das crianças esfomeadas na Etiópia -- pequenos andaimes de ossos a soçobrar, num olhar suplicante e quase morto -, e o soco que nos dão no estômago e na alma.
Aqui, porém, do que se trata é da civilização da imagem, daquela civilização que quer a visualização de tudo. Trata-se daquilo para que uma aluna me chamou a atenção. Ela tinha feito um trabalho sobre A Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord, um dos breviários da geração de 68, e disse-me: "Viu a transmissão televisiva do funeral do Papa João Paulo II? Aquilo era espectáculo, donde o mistério da morte foi arredado. Logo a seguir, em sequências vertiginosas, lá estavam imagens publicitárias e futebol: tudo o mesmo." Ah! A alienação com o futebol: "pensar com os pés" (Carlos Fiolhais)!
Há perigos na civilização da imagem?
Nela, por paradoxal que pareça, julga-se que se está perante a hiper-realidade, mas o que se vai impondo é o virtual, com a consequente perda da realidade real.
Depois, é isso: a vertigem de imagens e de informações, em voragem. Mas, então, onde está o tempo da possibilidade de distanciamento e de crítica? Ah!, e a própria crítica, se existe, tem de ser dada em espectáculo, dissolvendo-se então com ele e nele, pois, como escreveu José María Mardones, mais do que permitir a reflexão e a crítica, do que se trata é de "seduzir".
Na civilização da imagem, importante não é ser, mas parecer e aparecer. Quem não aparece existe? Por isso, lá dizem os políticos que decisivo é aparecer, nem que seja para dizer mal.
De novo Mardones: o predomínio da imagem, com a pretensão de mostrar tudo, até a interioridade do sujeito, tem outra consequência perversa: "o esvaziamento da intimidade."
O símbolo, esse, abre para a profundidade do real e para o mistério e vincula à transcendência. Na civilização da imagem, onde a realidade é o que se mostra, vive-se na imediatidade do que há, do mercado das sensações, do empírico-funcional, e, portanto, na in-transcendência.
E uma conclusão, que pode parecer abrupta. O Presidente da República espantou-se com a indiferença e distância dos jovens em relação à política. Seja-me permitido espantar-me com o espanto do Presidente. Razão de fundo - não a única, evidentemente - para esse distanciamento está em que o espectáculo da política e dos políticos é muitas vezes deprimente e pouco recomendável.
Depois, há aquela parábola de Arthur Clarke sobre os nove mil milhões de Nomes de Deus, que li citada por Mardones. Havia uma comunidade de monges tibetanos, que tinha a tarefa de reescrever e contar os nomes de Deus. O seu número ascendia a nove mil milhões, rezando a profecia que, cumprida a tarefa, viria o fim do mundo. Ora, aconteceu que os monges se cansaram com a contagem interminável. Então, recorreram aos peritos da IBM. Eles chegaram armados com computadores de último modelo e rapidamente cumpriram a missão. Os técnicos, que não acreditavam em profecias nem nos nomes de Deus, encaixotaram a maquinaria e iniciaram a viagem de regresso. Mas eis que, quando desciam para o vale, começaram a apagar-se o sol e todas as estrelas, uma a uma.
Com o fim do trabalho simbólico e o império da imagem e da técnica, o mundo humano vai definhando. Sem o símbolo, também não há lugar para a religião na sua autenticidade e verdade. Só para a idolatria.
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