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A DIREITA NO VÁCUO

por

Baptista-Bastos

escritor e jornalista

b.bastos@netcabo.pt  

A ver o que vi, naquela espécie de teologia de enganos que constituiu o debate mensal no Parlamento, José Sócrates não perderá as eleições. Paulo Rangel, aguardado com expectante alvoroço, estatelou-se: parecia um orador fúnebre entre sepultos. Quando trepou ao púlpito leu um texto enfadonho, asséptico, interminável. As câmaras das televisões fixaram para a eternidade alguns bocejos silenciosos e místicos. Não foi difícil a Sócrates desmontar o tosco edifício verbal de Rangel. Usou, aliás, o mesmo fundo de dissimulações: não expôs nenhuma ideia consistente, demonstrando um protagonismo absoluto na arte de falar sem nada dizer.

Confesso que esperava outra coisa de Paulo Rangel. Ocasionalmente, via-o nas televisões, comentador sem graça mas com esmero e gravidade, curvado ao peso de inauditas e desconhecidas angústias. Porém, fugia um pouco à ideia do realejo, comum a quem fez da política a pauta de um nota só. No Parlamento foi um desastre. A frase lacustre de Rangel encontrou na retórica de Sócrates, festiva e esbracejante, uma parede tenaz.

O novo líder parlamentar do PSD apenas reflecte o ânimo de cemitério da nova direcção do partido, com particular enfoque na dr.ª Manuela Ferreira Leite. Ouço-a e leio-a, sobretudo no espesso e dramático suplemento de economia do pesado Expresso, e dali nada resulta. A senhora não passa de um olhar gelado, um rosto gótico, uma tarefa adiada. É, somente e tragicamente, uma dirigente política para amigos; nunca será uma dirigente política para gerações - como quem diz: para o futuro.

Dois meses decorridos sobre a desistência de Menezes, o PSD aparenta não ter nada para comunicar, a não ser a atroz melancolia das suas contradições. A dr.ª ataca, agora, com a languidez ressentida de quem pressente que não causa perigo, o que anteriormente defendera com desembaraço e com adjectivos.

Na ausência de Santana Lopes, parecia emersa a hora e a vez de Paulo Portas. O primeiro é um farsante genial da política; o segundo, um clown envelhecido, e tão sem graça que chega a ser patético. Foi um articulista engenhoso: utilizava a metáfora como um aríete e a insídia como uma transgressão. A sua leviandade era tida como leveza de espírito. Tratava-se, tão-só, de irresponsabilidade. O jornalismo que praticou salda-se como uma vergonha no historial da imprensa. Cobriu Cavaco de injúrias e de desprezo. Mais tarde, apertou-lhe a mão, numa cena indignificante para ambos.

Perante esta direita arrogante mas sem orgulho, oca e desorientada porque vê cada vez mais distante o que considera seu direito divino: o poder - Sócrates poderá continuar a encenação do melodrama barato configurado no "socialismo moderno".


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