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LUÍS NAVES
Trabalho. Seis portugueses e 15 luso-brasileiros foram contratado em Londres por uma empresa multinacional para fazer a limpeza, durante doze dias, de um festival de rock na Irlanda. Atraídos pela promessa de mil euros, os trabalhadores perceberam que teriam de dormir num estábulo para cavalos
Um grupo de imigrantes portugueses foi atraído a um trabalho temporário de limpeza, na Irlanda, e confrontado com condições desumanas, incluindo dormir num estábulo para cavalos em sistema de "cama quente", rotativa, sem comida digna desse nome durante os doze dias de duração do contrato.
Três dos portugueses denunciaram a situação e puderam regressar a Londres, onde tinham sido contratados, mas no festival de rock Oxegen 2008, em Naas, a 40 quilómetros de Dublin, estão 49 trabalhadores temporários a fazer limpezas durante doze horas por dia e a dormir num local nauseabundo. São sobretudo de nacionalidade polaca, mas no grupo continuam três portugueses e uma dezena e meia de luso-brasileiros.
Sónia Mendes, de 31 anos, foi contratada em Londres e, ao chegar a Naas, protestou com outros compatriotas: "Recusámos dormir nos estábulos, que tinham um cheiro horrível", contou ao DN. Dos cinco chuveiros, só um tinha água quente. Na noite da chegada, havia apenas 17 refeições e 20 camas (para 52 pessoas). Os portugueses e luso-brasileiros que protestaram foram alojados numa cozinha anexa, mas sem sacos-cama. Sónia e outros dois portugueses queixaram-se à polícia irlandesa.
A empresa disse não ser responsável pela viagem de volta, mas acabou por oferecer melhores condições apenas para os três portugueses, o que estes recusaram, por não ser para todos os outros. A Cleanevent aceitou pagar a viagem de regresso para os três que denunciaram as condições. Os que as aceitaram, estão a trabalhar 12 horas diárias no recinto do festival, revoltados e a comer de forma deficiente.
A Cleanevents é uma das maiores empresas deste sector de serviços no Reino Unido, responsável pela limpeza de estádios, incluindo de Wembley ou do clube de futebol de Chelsea.
"As pessoas que vão aos festivais e curtem a música nunca sabem que há um lado luminoso e outro mais escuro", disse ontem ao DN o eurodeputado Miguel Portas, do Bloco de Esquerda, que ajudou a denunciar esta situação. O festival de rock realiza-se num hipódromo e começou ontem, mas o trabalho temporário iniciou-se quarta-feira e deverá prolongar-se até dia 20.
"Estamos num período de festivais por toda a Europa e os organizadores cumprem escrupulosamente os contratos com os artistas, incluindo as extravagâncias, e depois negam direitos básicos aos trabalhadores. Aqui, temos uma situação de salário mínimo e condições abaixo de cão", explicou Miguel Portas ao DN, na mesma entrevista telefónica.
Segundo o eurodeputado português, a empresa responsável pela contratação, a filial britânica da Cleanevent (uma multinacional do sector), foi desta vez forçada a usar trabalhadores comunitários. No Reino Unido contrata sobretudo indocumentados, mas "na Irlanda não podia recorrer a imigrantes sem papéis".
Aos 52 trabalhadores foi dito que não era necessário levar dinheiro, factor que terá impedido muitos deles de procurarem a polícia, após serem confrontados com as ilegalidades. A Cleanevent paga a cada trabalhador o salário mínimo horário no Reino Unido, o que dará cerca de mil euros, no fim dos 12 dias de trabalho.
O DN contactou a filial britânica da empresa, mas não foi possível obter um comentário em tempo útil.|
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