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editorial

A justiça está a caminhar para um buraco negro

 

Oestado da justiça em Portugal assemelha-se a um perigoso buraco negro que absorve quem lhe passa por perto. Já sabíamos que numerosos agentes da PSP trabalham em part-time como porteiros/seguranças de discotecas. Agora passamos a saber que há inspectores da Judiciária que arredondam o salário mensal fazendo uns favorzinhos (cedência de meios da PJ) à devassa da vida privada de cidadãos praticada por detectives privados.

No imperdoável caso Maddie, a incompetência e as lutas internas que dilaceram a polícia de investigação foram postas a nu e transmitidas em directo para toda a Europa. A maneira ardilosa como Vale e Azevedo tem trocado as voltas à justiça portuguesa apenas contribuiu para desprestigiar mais os tribunais. Sendo a competência do Ministério Público seriamente comprometida em casos célebres como o da "fruta" do "Apito Dourado", arquivado por notória inabilidade da acusação.

Já são muito poucos os portugueses que respeitam um sistema congestionado, que não consegue responder com qualidade e em tempo útil aos problemas dos cidadãos e empresas.

A justiça continua num caos. E não foram as mudanças dos códigos que a trouxeram à tona.

Muitas vezes, as coisas importantes contam-se nos pequenos pormenores. Não é o caso de Ingrid Betancourt. Toda a sua história é um drama enorme. Mas quem quiser saber definitivamente a diferença entre a civilização e a barbárie basta olhar para as orelhas e pestanas de Ingrid Betancourt, depois de se libertar do cativeiro de seis anos das FARC.

Quem a viu à saída do avião que a trouxe da selva para Bogotá notou o rosto cansado e sem adornos. Não mais que uma prática trança, usada para reter o cabelo que nunca foi cortado. Depois, no dia seguinte, o cansaço de quem já viveu muita coisa permanecia, mas havia dois pequenos detalhes: uns brincos nas orelhas e uma leve maquilhagem.

E fica a imaginar-se quanta felicidade devia haver em Ingrid ao ver-se ao espelho, finalmente livre. Essas serão as imagens que não ficarão para a história porque não foram presenciadas por nenhum jornalista. Ingrid no seu quarto, a reencontrar-se com o mundo nas pérolas, no rímel que espalhou pelas pestanas dos olhos pequenos. Um pouco de pó-de-arroz, quem sabe? Gestos que a trouxeram de novo à sua rotina diária de ser uma mulher normal. E também a terão ajudado a afastar da selvajaria e da indignidade da selva. Por exemplo, de ter de fazer as necessidades em frente dos seus carcereiros - como contava ontem o DN.

Quem não percebe o quanto esta mulher merece estes gestos não percebe nada do mundo. E não devia ter nenhuma palavra a dizer sobre a política e a democracia que os permite.|


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