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Um dia de cativeiro contado por Ingrid Betancourt

 

Relato feito por Ingrid Betancourt na conferência de imprensa na embaixada francesa em Bogotá e recolhido pelo jornal colombiano El Tiempo

Levantava-me às quatro da manhã, depois de provavelmente ter tido uma insónia desde as três da manhã. Esperava as notícias, os espaços da rádio que nos davam a possibilidade de comunicar com as nossas famílias, em particular La Carrilera, todos os dias às cinco da manhã, e aos fins-de-semana Voces del Secuestro, Noches de Libertad. A rádio Todelar também com o programa Alas de Libertad, às seis da tarde. Com isso preenchemos os nossos dias.

Era libertada das correntes às cinco da manhã. Traziam as botas mais ou menos nessa altura. Depois, era fazer fila para esperar a vez de "chontear". "Chontear" é um termo muito guerrilheiro que significa fazer as necessidades nuns buracos assombrosos, porque não há latrinas, não há nada. Então tínhamos que esperar a nossa vez para ir atrás de uns arbustos. Depois, fazer fila para que nos dessem o pequeno almoço. Esse pequeno almoço era normalmente uma arepa [um pão especial], provavelmente algo com chocolate, um caldo.

Depois, tentar encontrar o que fazer durante longas horas até às 11.30 da manhã. Num sequestro, no final de um certo tempo já nada há a dizer, e por isso chega-se a um acampamento de reféns e toda a gente está no seu canto em silêncio. Há os que dormem, os que meditam, os que ouvem rádio. Se puderem, com antenas feitas de arame, amarrado a um pau atirado para a copa de uma árvore para conseguir uma antena que tenha maior alcance de forma a conseguir apanhar a onda curta, onde se apanham os programas durante o dia.

Depois, prepararmo-nos para o banho rápido. Vamos, normalmente, a um sítio onde há um pequeno rio onde nos banhamos. Tudo é limitado, há gritos: 'tem cinco minutos, têm 20 minutos', suplicar para que nos deixem lavar a roupa. Tudo o que podemos pedir é sempre negado, então é muito aborrecido, porque nos habituamos a tomar banho em cinco minutos.

Para mim era uma tortura lavar o cabelo porque não me davam tempo. Eu estava com homens que não precisam lavar o cabelo e por isso eles estavam prontos em dez minutos e eu, aos 25 minutos, ainda estava a tomar banho e arrancavam-me aos gritos, era muito humilhante.

Depois disto ir até à caleta, vestir. Com muito cuidado para não cair a toalha enquanto vestimos a roupa interior, com muito cuidado para não sermos atacados por uma hallanave ou um escorpião ou qualquer outro bicho enquanto nos estamos a mudar, porque a todos nos calhou ser picados por qualquer bicho, tornámo-nos peritos. Todos os dias alguém diz: "Ui, acabo de ser picado por uma hallanave." Então alguém responde: 'Onde está?" Não faço a mínima ideia, deve estar por aí.

Uma hallanave é uma formiga muito grande e a dor que produz é como a da picada de um escorpião. Há umas formigas muito pequeninas que se chamam majiñas, que caem das árvores e quando se roçam na nossa pele, urinam, produzindo um ardor muito forte. Estamos sempre a lutar constantemente contra todas estas pragas.

Depois disso, chega a comida. Se há algo para comer que o tragam muito rapidamente, temos que lavar os dentes, limpar as botas, ir para a caleta ou pelo menos organizar o mosquiteiro, levantar a cama de rede, e muito rapidamente cai a noite e já temos que estar na cama de rede. As botas têm que estar ao lado para que as recolham e as levem, porque têm medo que fujamos com as botas e não nos deixam ter os sapatos à noite. Põem-nos as correntes e, então, se o guarda estiver de mau humor, vai agarrar-nos e apertar muito as correntes, que não nos vão deixar dormir. Se é simpático, diz-nos que é tão boa gente que nos vai deixar as correntes um bocadinho mais largas.

Podemos, nessa altura, negociar, e eu consegui que me pusessem a corrente no pé, porque não conseguia dormir. As correntes eram muito grossas, os cadeados eram muito grandes, eu terminava com feridas na omoplata por causa do raspar da corrente.

E deitamo-nos, junto à rádio para vos ouvir a todos. Ouvimos Luciérnaga, ouvimos Cocuyo, a Hora 20, ouvimos tudo o que podemos. Trata-se de saber tudo o que seja notícia para pensar noutra coisa, para ter tema de conversa no dia seguinte. Dormimos como um chumbo tentando esquecer o pesadelo em que vivemos. E levantamo-nos no dia seguinte, provavelmente tendo sonhado coisas como, por exemplo, estou a correr com os meus filhos, vi a minha irmã e rapidamente tudo se tornou um pesadelo, com a corrente ao pescoço, com sede, com vontade de urinar. Acontece termos que urinar à frente dos guardas. Imaginarão o que era para mim urinar frente aos guardas à noite, quando nos apontam a lanterna porque há muita crueldade, há muita maldade. Não vos conto tudo porque são coisas muito pessoais e é muito doloroso.

Quando passa um helicóptero por cima de nós começamos a suar, porque já sabemos o que quer dizer: empacotar todas as nossas coisas e sair a correr. Todos, imediatamente, nem nos falamos, todos começamos a despachar-nos. Toda a roupa está empacotada em plásticos, empacotar tudo em plásticos, rápido, e a cama de rede, o mosquiteiro, tirar o toldo, dobrá-lo rapidamente, meter tudo dentro da mala, nunca cabe tudo, ficam sempre coisas de fora, ficam cuecas, botas, tudo fica num carreiro de coisas, acho eu, por causa do pânico que todos sentimos por fugir. Porque pode haver um ataque aéreo, uma bomba, e uma pessoa sai a correr e carrega com as suas coisas... como lhes deve pesar a muitos o elefante nas costas [risos], as coisas que pensei. Meu Deus, que coisa espantosa.

E essas marchas. O pior, o pior são as marchas. Uma marcha, depois de me levantar às quatro da manhã, carregada com todas as coisas, sem luz. Obviamente somos picados pelas formigas, quando vestimos a roupa está com formigas, e a roupa que pomos quando marchamos está húmida, absolutamente molhada. E às quatro da manhã está frio, o frio do amanhecer.

A roupa com que estamos é a única que temos, é a roupa para marchar que se molha com o suor, marchas de dias que podem durar dez horas. Saímos às cinco, seis da manhã, logo ao raiar do dia. Bem, os que caminham rapidamente chegam às duas da tarde, mas os que caminhamos lentamente chegamos ao acampamento às quatro, cinco da tarde e o sol já se está a pôr. Temos que montar a cama de rede, temos que ir tomar banho, temos que comer, lavar as roupas que ficam sempre suadas. Nós dizíamos sempre: 'Há duas alternativas: sujo e seco, não se lava, sujo e molhado, lava-se.' E como sujo molhado é sempre todos os dias, lavava-mos sempre a roupa. Pelo menos púnhamos a roupa dentro de água, torcemos e estendemo-la o melhor possível. De manhã essa sensação de roupa molhada era uma tortura. Esperar que nos tirem as correntes, depois meter as correntes na mala e voltar a partir...|


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