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por
EURICO DE BARROS
Entrevista. Chamam a George R.R. Martin 'o Tolkien americano'. Já vendeu milhões de exemplares da sua saga de fantasia em sete partes, 'As Crónicas de Gelo e Fogo'. Está em Portugal para lançar um novo volume e falou ao DN
Escritor gosta de surpreender os seus leitores
A revista Time chamou-lhe, no ano passado, "O Tolkien americano". Gosta destes rótulos?
Num sentido, é um rótulo tolo, porque cada autor de fantasia é único e eu não escrevo como Tolkien, apesar de o admirar imenso. Mas noutro sentido, Tolkien teve uma profunda influência sobre mim, ainda hoje o releio regularmente e está na base de toda a fantasia moderna. Ele era inglês e um homem do seu tempo, eu sou um escritor do meu tempo, da geração do baby boom e da Guerra do Vietname. E quando escrevo, inevitavelmente, algo das atitudes dessa geração e da minha nacionalidade americana transparecem na minha escrita. Dito isto, fico bastante satisfeito por a Time me ter chamado isso. Só o ser notado pela Time já é um feito em si (risos).
A sombra de Tolkien ainda paira sobre a sua geração de autores de fantasia?
Sim, ainda lá está. Ele redefiniu o género, que vem do tempo de Homero e mergulha fundo na cultura ocidental. Todos operamos ainda na tradição estabelecida por Tolkien - até os que o negam.
O mundo de As Crónicas de Fogo e Gelo distingue-se por ser mais "medieval" e "realista", e por dar um papel menos relevante ao sobrenatural, do que é normal no género. Isso tem a ver com as suas leituras e influências? Foi uma escolha deliberada, para evitar a estereotipação ?
Diz-se que escrevemos aquilo que gostamos de ler. Eu sempre fui um grande fã de fantasia, mas também de ficção histórica, e por isso quis aplicá-la a um ambiente de fantasia. Isto porque quando estamos a ler ficção histórica, sabemos sempre o que vai acontecer. Por exemplo, se é um livro passado na Guerra das Rosas, já sei que lado vai ganhar. E como leitor, gosto do inesperado, gosto de ser surpreendido. E ao injectar alguns dos ingredientes da ficção histórica na fantasia, acho que consigo ficar com o melhor dos dois mundos, com a textura dos melhores romances históricos, e o inesperado da fantasia.
Também é conhecido por matar muitas das suas personagens neste ciclo, o que não é habitual os escritores fazerem...
Sim, declaro-me culpado! Mas isso é necessário quando se escreve sobre guerra, seja ela de fantasia, seja a II Guerra Mundial. As pessoas morrem na guerra, e habitualmente, nos livros sobre guerras, morrem milhões de anónimos, mas nunca o herói, a namorada ou o melhor amigo dele. Acho que isso é batota. Prefiro começar a matar personagens muito cedo, para que as pessoas percebam logo que ninguém ali está seguro. Além disso, gosto que os meus leitores se sintam a viver os acontecimentos que descrevo, que entrem pelas páginas dos livros adentro. Para que isso suceda, é preciso que a história seja emocionalmente envolvente a todos os níveis e que as pessoas vejam, sintam e experimentem tudo em pormenor, seja uma festa num castelo, seja uma batalha.
Quando se cria um mundo tão complexo como Westeros, em que a saga decorre, como é que se evita perder o controlo da narrativa, esquecer pormenores da geografia ou das dinastias? Fez mapas, listas das personagens, tem uma base de dados?
Sim, tenho mapas e estou sempre a acrescentar-lhes pormenores, e fiz listas das personagens e cartas genealógicas. É muito complicado. Tenho isso tudo no computador, mas muita coisa também está na minha cabeça.
A série começou como um livro só, ou por ser uma trilogia?
Queria fazer uma trilogia. Mas quando vi que tinha 1500 páginas manuscritas só do primeiro livro, percebi que tinha que reestruturar tudo. Passei de três livros para quatro, depois para seis, até chegar aos sete. Isto também sucedeu a Tolkien: O Senhor dos Anéis ia ser uma continuação de O Hobbit, um livro só...
Nunca tem a sensação de que este mundo que criou "manda" em si? Ou tem controlo total sobre ele?
Até certo ponto, as personagens apoderaram-se de mim, e é um mundo muito complexo. Sim, de vez em quando, sinto-me "dominado" por ele. Por outro lado, estou sempre a resistir acrescentar-lhe coisas e personagens! (risos).
Esperava ter todo este sucesso, vender milhões e ser número 1 do top de livros do New York Times?
Não. Esperava ter sucesso, mas nunca tanto. Sempre tive sucesso desde que comecei a escrever, sempre vendi bem e ganhei prémios Hugo e Nebula. Mas nunca esperei ser o autor mais vendido nos EUA e passar horas a dar autógrafos. É pena que isto não tenha acontecido há 30 anos, quando era mais novo, mais magro e tinha mais energia! |
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