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Espanha, um campeão sem mácula

 

A criatividade rigorosa ganhou ao rigor monocórdico, o que é sempre uma boa notícia para o futebol. E foi justo, porque a Espanha foi sempre superior e em todos os domínios do jogo. Mesmo no conjunto da prova, cinco vitórias e um empate e uma constatação: a equipa com a média de alturas mais baixa do Euro 2008, com um meio-campo de miniatura, ganhou. O poder atlético não é inultrapassável quando há atitude. Este triunfo da Espanha, conjugado com o da Itália no último Mundial, traz de novo o futebol latino para o topo.

A Espanha construiu a vitória a partir do controlo da posse da bola. Esse também é o ponto forte da equipa da Alemanha, mas há uma substantiva diferença. Esta Alemanha promove uma circulação linear, previsível, em que o pivot é sempre Ballack e as opções são normalmente duas: passe para as alas, a provocar a velocidade de Schweinsteiger ou Podolski, ou a solicitação vertical de Klose, que é tão bom nas entradas de cabeça quanto medíocre com a bola nos pés. Do lado espanhol tudo é mais criativo. A recuperação é comandada por Senna (que faz aquilo que Paulo Assunção poderia ter feito na selecção portuguesa, se Scolari fosse tão bom técnico quanto é um motivador de excelência…), mas depois Xavi (fantástico jogo!), Iniesta, Fàbregas e até às vezes Silva podem fazer tudo e o seu contrário - além de que Torres cresceu imenso com a passagem para o futebol inglês.

Não é por acaso que chegaram à final precisamente as equipas com os dois melhores sectores intermediários de toda a prova. O duelo travou-se aí na primeira parte, e a Espanha ganhou. Na segunda, com a Alemanha de regresso ao 4x4x2 (terminaram Kuranyi e Gomez), a Espanha geriu o espaço, mandou através do contra-ataque, e teve várias oportunidades para acabar à vontade, um jogo que o seu veteraníssimo treinador geriu da forma habitual em termos de substituições, com a tranquilidade de quem já viu muito.

Antes do início da prova, três equipas reuniam o favoritismo no mercado das apostas: Alemanha, Itália e Espanha. Vendo as coisas desse ponto de vista, e depois das habituais surpresas e pseudo-surpresas, a final teve lógica, ao contrário do que aconteceu no Euro 2004, ganho pela Grécia em Portugal. Um dia o balanço da era-Scolari há-de ser feito sem o folclore das bandeiras na janela, e aí talvez percebamos que ao brasileiro faltou em clareza táctica o que lhe sobrou sempre em arrogância.|


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