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ANA TOMÁS RIBEIRO
Fenómeno. Chegar ao centro da "bola" é hoje o objectivo de muitos portugueses, desde quadros médios e altos de empresas, até estudantes. As maiores apostas chegam aos dez mil euros. Alguns já ganharam tanto dinheiro que alugam cofres para o colocar e pagam tudo em notas. A questão é saber se é burla.
Há empresas onde dezenas de pessoas jogam
Chamam-lhe um jogo. O jogo da "bolha" ou da "bola". Mas, na realidade, é uma forma de ganhar dinheiro fácil. Neste momento, há milhões a rolar, diz quem conhece por dentro o esquema. Apesar do risco ser enorme para quem entra nele. Ao contrário do que diz quem procura atrair, nas empresas, escolas ou convívios de amigos, colegas e familiares, novos apostadores.
Sobretudo quando as apostas são de 5 000 ou de 10000 euros, que é quanto "investe" quem vai para as bolhas de valor mais alto, normalmente as que funcionam para empresários, quadros médios-altos ou altos de empresas ou outras entidades. E esse risco é ainda maior para os que contraem empréstimos, aliciados pelos 80 000 ou 40 000 euros que podem ganhar, nas apostas mais altas, apenas numa fase posterior.
Foi o caso de Pedro (nome fictício), quadro médio, que fez um empréstimo de cerca de 6 000 euros na banca para entregar 10 000, atraído pelos 80 000 que receberia quando chegasse ao anel central da tal bolha. Neste momento, já ganhou e saiu. O problema é o stress que se tem até conseguir arranjar mais duas ou três pessoas para entrar na "bolha". Por isso, assegura que não volta a entrar.
O esquema, que está a gerar uma verdadeira euforia em tempo de crise (e já foi explicado sexta-feira passada pelo semanário Sol), está em Portugal há três meses, disse ao DN Carlos, quadro superior duma grande empresa onde há dezenas de pessoas a jogar.
O esquema funciona como um bolo fatiado. Cada fatia de cada círculo corresponde a uma posição mais distante ou menos do centro onde está o dinheiro, explica Carlos. Alguns dos seus colegas já chegaram várias vezes ao centro da bola e "estão fartos de ganhar dinheiro". "Pagam tudo em notas", desde as férias, ao supermercado e electrodomésticos, para não serem detectados, através de depósitos de grandes quantidades de dinheiro no banco.
"Ainda ontem um colega meu fechou a terceira bola. Mas essa era de 2000 conta um outro amigo de Carlos da mesma empresa. Por isso, vários até optaram por alugar cofres, explicou. Carlos foi aliciado a entrar na bola, mas não aceitou, porque achou que era demasiado o risco a correr. Além dos colegas, Carlos conhece, pelo menos mais um empresário que também está "viciado no jogo", que já lhe deu milhares de euros.
As pessoas que conhece só jogam nas bolas de 10 000 euros, mas algumas juntam-se para entrar numa mesma casa, das oito que fazem parte do primeiro anel da bolha, o único onde se entra com o dinheiro. A partir dali é a corrida para convencer quem se conhece para preencher as oito casas do primeiro anel.
Porque só quando estas estiverem preenchidas por novos membros, poderão subir ao segundo e depois ao terceiro círculo até serem "empurrados para o centro da bola", onde arrecadam os 80 000 euros. As transacções fazem-se em locais públicos, como parques de estacionamento ou mesmo na rua, conta.
ASAE investiga PSP avalia No locais de emprego, fala-se sobre o assunto em código. Os telemóveis utilizados para falarem com os parceiros de jogo são comprados para o efeito e não ficam registados nos seus nomes, conta um outro colega de Carlos da mesma empresa, Miguel, que já esteve em vários almoços onde o assunto foi abordado. Convívios de trabalho em que os que estão a jogar aproveitam para aliciar os outros a entrar. Até falam de nomes de personalidades públicas que dizem que já entraram no jogo, para atrair ainda mais as atenções, relata. "Na volta não é verdade", diz Miguel.
Em reuniões, em hotéis em Lisboa, marcadas com meia hora de antecedência por sms, procura-se angariar novos participantes, convidados por amigos ou colegas que já estão no jogo, para participarem naqueles encontros. Ali não há transacções de dinheiro, não vá o diabo tecê-las, diz quem já entrou na "bolha". Ao mesmo tempo explica-se como tudo funciona. Entretanto, há quem registe as posições de cada uma das pessoas na bolha, contam. Por isso, alguns andam com essas folhas.
F onte oficial da Secretaria de Estado do Comércio, que tutela a ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), confirmou ao DN que aquela entidade já está a investigar o assunto, mas escusou-se a revelar qualquer outro detalhe, para não prejudicar a investigação, que é considerada "bastante complexa", pela dispersão do fenómeno.
Não será difícil de investigar, é preciso é identificar-se as pessoas envolvidas. Agora, o que é preciso saber é se este fenómeno é um crime ou não, explicou ao DN Carlos Anjos (ver texto ao lado), presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal (ASFIC).
A PSP, por seu lado, está a avaliar a situação e a sua dimensão. E fontes da PJ, dizem que o assunto só será investigado por aquela entidade se o Ministério Público assim o entender e se houver queixa. Mas não confirmam, para já, que haja queixas ou que o assunto esteja a ser investigado.
O negócio da "bolha", que hoje já está espalhado de norte a sul do País, pelo menos nalguns centros urbanos, começou no Norte, "importado" de Espanha por empresários portugueses. É pelo menos isso que explica quem procura atrair outros para entrar no jogo.
O fenómeno alastrou-se. Mas corre o risco de colapso. E quando isso acontecer muitos poderão perder milhares de euros, diz Carlos Anjos.
Basta pensar que, para uma pessoa ganhar, estão 16 a contribuir e que as bolas se multiplicam cada vez mais, lembra o presidente da ASFIC.
Não há cheques, nem recibos. Resta apenas uma grande dose de confiança de que tudo vai correr bem. Por enquanto, está toda a gente a ganhar. Ou quem perdeu ainda não falou.
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