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MARIA JOÃO PINTO
Património. Por perda de apoio do Estado, a única equipa de arqueólogos portugueses envolvida em escavações no Egipto viu-se obrigada a recorrer a um empréstimo bancário para que Portugal não perca a concessão. Projecto deixou de contar com o financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia
Projecto Apriés está em curso desde o ano 2000
Portugal, que foi um dos últimos países europeus a conseguir obter uma licença de escavação junto da Autoridade das Antiguidades Egípcias, arrisca-se a perdê-la num meio altamente concorrencial. Por perda de apoio do Estado, a primeira e única equipa de arqueólogos portugueses envolvida em escavações no Egipto viu-se este ano obrigada a pedir um empréstimo bancário para que os trabalhos não cessem e Portugal não perca a respectiva concessão. O projecto, que decorre desde 2000, deixou de contar com o financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), apesar de o valor pedido pela equipa ser idêntico ao preço médio de um simples apartamento na capital: 195 mil euros, para uma nova campanha de trabalhos arqueológicos a desenvolver em três anos.
"Surgida de forma absolutamente inesperada", a recusa de apoio por parte da FCT, até aqui principal patrocinador do projecto, "constituiu para nós um choque", recorda ao DN Maria Helena Trindade Lopes, docente da Universidade Nova de Lisboa e directora da equipa que, há oito anos, procede a escavações e levantamento arqueológico em Kôm Tûman, a norte de Mênfis, lugar de implantação do palácio do faraó Apriés.
Em Março último, prazo-limite para a renovação da licença, e após vários pedidos de audiência "sem resposta", a equipa, que tem trabalhado a título gracioso desde sempre, viu-se obrigada a tomar decisões, sabendo que, "se abandonasse o projecto de repente", lembra Maria Helena Trindade Lopes, o local "seria seguramente saqueado" e Portugal rapidamente perderia a concessão.
Para manter o projecto sem interrupções, a única hipótese seria pagar do seu bolso, recorrendo à banca, o que veio efectivamente a acontecer: já fora do calendário que estabelecera, a equipa "organizou-se em 15 dias" e regressou ao Egipto para uma campanha de apenas um mês, e sob condições climatéricas adversas em matéria de ventos, entre temperaturas de 51 graus. O empréstimo bancário, esse, terá agora de ser pago ao longo de 11 anos. "É desanimador e uma vergonha para o País", frisa Maria Helena Trindade Lopes, "mas não baixaremos os braços".
Docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e membro da equipa na qualidade de consultor de engenharia, Luís Teixeira Pinto não poupa críticas ao modo como a FCT geriu este dossier: "Estamos a falar de um meio extremamente concorrencial, com grandes universidades e grandes grupos económicos a financiarem as equipas estrangeiras. Estão lá os países todos, a maioria com missões permanentes. Se Portugal perder esta concessão, nenhuma equipa nacional volta a trabalhar no Egipto. Na verdade, a questão que aqui se coloca transcende o Projecto Apriés: esta é a única representação que lá temos, é o prestígio do País que está em causa. E estamos a falar de verbas perfeitamente irrisórias".
Para lá de ter posto Portugal no mapa da arqueologia no Egipto, o projecto tem constituído também uma oportunidade de formação para os mais jovens, lembra. A cada regresso a Kôm Tûman, Maria Helena Trindade Lopes leva alguns dos seus alunos de mestrado, por regra "dois ou três" por cada missão. "Os alunos dão o seu trabalho e a sua motivação. Será que isso também não vale nada para o Estado português?", questiona Luís Teixeira Pinto.
O problema do financiamento - e, por inerência, da manutenção da licença de escavação -, esse, vai voltar a pôr-se no final do Verão: "Precisamos de chegar ao mês de Setembro com a garantia de que temos dinheiro" para, em Novembro, retomar os trabalhos em Kôm Tûman.
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