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por
João César das Neves
professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Acaba de ser nomeada a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. Apesar dos problemas e percalços, o nosso regime merece celebrar cem anos com festejos serenos e elevados. Afinal a nossa é a República mais longa da Europa depois das pioneiras mundiais, a "mui serena República de San Marino" com 1700 anos e a Suíça de 700 anos. As demais, ou começaram depois ou foram interrompidas entretanto.
Só graças à revolução de 1974 é possível celebrar condignamente a revolução de 1910. A turbulência inicial e a ditadura seguinte puseram-no em risco, mas a actual democracia olha com confiança o passado e esperança o futuro. Os festejos devem marcar essa tranquilidade. Só questões de regime e religião a poderiam ensombrar, mas sem razões para tal.
Celebrações da República serão sempre dolorosas para os monárquicos. Mas o seu patriotismo deve regozijar-se com a paz que hoje rodeia a questão do regime. O século XIX viveu em permanente sobressalto, entre absolutistas e liberais, monárquicos e republicanos. Ganhamos muito por, mal ou bem, a questão ser agora pacífica.
Quanto ao tema religioso vivemos duas gerações após Afonso Costa dizer no Grémio Lusitano a 26 de Março de 1911 que "em duas gerações terá eliminado completamente o catolicismo" (O Tempo, 27 de Março de 1911). A verdade é que a Igreja viveu melhor nos cem anos da República que nos dois séculos anteriores.
Muitos esquecem como o abraço sufocante do absolutismo e o estrangulamento cínico do liberalismo foram terríveis para a fé. É verdade que se pode dizer que Afonso Costa fez pior que o Mata-Frades e Salazar instrumentalizou mais que Pombal. Pode falar-se dos problemas da actual Concordata e dos obstáculos tolos à acção da Igreja. Apesar disso, nos últimos 300 anos só a nossa República viveu verdadeira liberdade religiosa.
Celebra-se, não a violência cruel e tonta, mas o espírito cristão com que foi suportada. Prova-o logo a Pastoral Colectiva do Episcopado português de 24 de Dezembro de 1910, com que os bispos reagiram à terrível perseguição (agora republicada em Síntese - revista de actualidades eclesiais de D. Serafim Ferreira e Silva, n.º 188-190, Jan.-Jun./2008).
No documento os prelados começam por dizer-se "acusados por vezes de demasiada prudência e longanimidade" (I) e até afirmam que "nos é agradável aplaudir algumas medidas do Governo Provisório" (III). Mas asseguram que "angustiosa, gravíssima é a crise por que está passando a nossa pátria sob o aspecto religioso" (I). Citando autores tão variados como Pasteur e Bismarck, Montesquieu e Gambetta, os bispos fazem profunda análise e cuidada fundamentação, tratando serenamente os terríveis estragos na educação e saúde, pobreza e aldeias, colónias e famílias.
A conclusão é clara: "Em face das instituições actuais qual é o dever dos católicos portugueses? Acatá-las, sem pensamento reservado" (III). Os padres devem "tomar sumamente a peito os interesses do povo, particularmente os dos operários e dos jornaleiros agrícolas" (IV). O texto quase considera a perseguição como normal: "Devemos porventura estranhar que assim suceda? Poderá a luta actual causar-nos surpresa? (...) [A Igreja] desde que nasceu, não conheceu tréguas (...) E venceu! Como? Resistindo? Revoltando-se? ... Não! Sofrendo" (I).
O nosso tempo precisa de novo desta verdadeira atitude cristã. Lisboa tem dela um símbolo insólito mas evidente. A Igreja de S. Domingos ao Rossio é das mais movimentadas do País, com milhares de pessoas diárias. Mas o templo é uma triste ruína por um incêndio fortuito em Agosto de 1959. As paredes mostram ainda a horrível destruição, com lampejos da antiga magnificência. O fausto ardeu; ficou o labor e o fervor. Sob as horríveis cicatrizes da catástrofe, a vida de fé continua impassível. Esta é a grandeza da Igreja, sucessivamente demolida e sempre renascida. O sacrário de S. Domingos é de um dourado esplendoroso circundado por anjos desfigurados e mutilados. Os fiéis não olham nem o ouro nem o destroço, mas dentro.
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