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FILOMENA NAVES
Durante 600 anos pelo menos, ao longo do terceiro milénio a.C, Stonehenge, o monumento megalítico mais misterioso de Inglaterra foi utilizado como cemitério. Mas isso não é tudo. Os restos mortais ali enterrados pertencem provavelmente a uma única família de chefes, ou reis, que governaram ao longo de toda essa época.
Esta é principal conclusão das escavações feitas no local, em Agosto e Setembro do ano passado, por arqueólogos liderados por Mike Parker Pearson, da universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha, e apoiada pela National Geographic Society. A descoberta só foi possível graças à datação por radiocarbono, realizada pela primeira vez em restos mortais encontrados junto ao monumento.
"É claro para nós agora que Stonehenge teve carácter funerário em todas as suas etapas", explicou ontem Parker Pearson em Washington, na conferência em que foram divulgados os resultados das escavações realizadas no Verão. O arqueólogo inglês sublinhou ainda que "Stonehenge foi utilizado como cemitério desde a sua construção até ao seu abandono final, por volta de meados do terceiro milénio a.C.". Supunha-se até agora que essa prática teria ocorrido apenas entre 2700 e 2600 a.C.
Os restos das cremações, que datam da época em que Stonehenge foi construído, em 2500 a.C., são no entanto parte apenas do que foi encontrado e pertencem a um período tardio, "demonstrando que o local foi reservado ao enterro dos mortos durante muito mais tempo do que pensávamos", como notou Parker Pearson.
Os restos mortais mais antigos, e datados por radiocarbono pela equipa, datam de 3030 e 2880 a.C.. Os mais recentes, que correspondem a uma mulher de 25 anos, que foi cremada e enterrada entre 2570 e 2340 a.C, por volta da época em que se calcula que tenham sido erigidas as pedras gigantes na planície de Salisbury.
Os restos mortais analisados, constituídos por ossos carbonizados e dentes, foram encontrados na chamada vala de Audrey, um fosso circular que rodeia o monumento com o mesmo formato. O seu estudo permitiu levantar a hipótese de que eles pertencem a uma única família, "provavelmente a uma linhagem real da época na região", como explicou ontem o arqueólogo Parker Pearson.
Um dos indícios que sustenta esta tese avançada por Andrew Chamberlain, arqueólogo na universidade de Sheffield também, e co-autor do trabalho em Stonehenge, é que o número de sepulturas vai aumentando à medida que os séculos avançam. De acordo com a equipa, isso significaria o aumento natural da descendência, de geração em geração.
Outra característica que apoia a tese da linhagem real das pessoas que ali foram sepultadas tem a ver com o próprio carácter monumental da jazida. "É muito difícil pensar que pessoas comuns fossem enterradas em Stonehenge. Os chefes de uma tribo do Neolítico terão assim sido responsáveis por erigir o monumento e foram enterrados ali", explicou o líder da equipa.
E se estes enigmas parecem agora resolvidos, outros permanecem. Porque razão foi Stonehenge erigido naquela região, onde há outros monumentos megalíticos, embora de menor dimensão? Esse mistério permanece insolúvel, por enquanto. Novas pesquisas poderão no futuro lançar uma luz sobre ele.
O trabalho de Pearson e as suas descobertas irão para o ar no National Geographic Chanel, no domingo, pelas 20.00, no documentário "Stonehenge decifrado". |
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