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por
Ana Sá Lopes
jornalista
A entrevista de José Sócrates ao Libération é um mimo. Constança também leu e quase verteu uma lágrima. O homem, afinal, parece que também subiu a vida a pulso, como o outro - tem um pai arquitecto que "por pouco escapou à miséria", e é malvisto entre a "aristocracia de esquerda" - provavelmente, junto do conde Manuel Alegre e da dinastia Soares (apesar dos elogios recorrentes do velho rei).
O "é verdade, sou um provinciano" confessado ao enviado do Libération à residência oficial marca um novo impulso na identificação entre primeiro-ministro e Presidente da República. "Fiz-me sem pedir licença a ninguém", diz Sócrates. Cavaco já nos anda a dizer há 20 anos que "subiu a vida a pulso", que veio de "baixo" e que só através do "trabalho" obteve o poder e a glória.
Há em Sócrates - como, de resto, em Cavaco - qualquer coisa parecida com uma comovente ingenuidade. Eles pesam o que dizem, não dão ponto sem nó, treinam o discurso e mantêm-se sempre na permanente tensão dos genuínos provincianos no Palácio. De Poço de Boliqueime para Lisboa, de Vilar de Maçada para o mundo, há um percurso socrático-cavaquista comum. Desconheciam-se as origens do pai arquitecto de José Sócrates - que não são as de Sócrates ele mesmo - mas o pai Pinto de Sousa passou agora a estar em plano de igualdade de origens com o pai Cavaco Silva (recentemente falecido), que o Presidente da República sempre invocou, sistematicamente, como exemplo, desde o início da sua carreira política.
É interessante esta "concertação simbólica" entre as duas mais importantes figuras da nação. Sócrates, aliás, desde o início da sua ascensão à liderança do PS, empenhou-se em passar a imagem do "anti-Guterres" - ao contrário do seu pai político, ele nunca seria um "conciliador". O seu modus operandi tinha muito mais a ver com o maior dos mitos políticos da democracia consolidada, Cavaco Silva, o homem do leme e do rumo que Sócrates prometia e mimetizava.
Sendo verdade, o provincianismo é em Portugal uma coisa boa e popular. Vá lá, provincianos somos todos. O canto não é propriamente cosmopolita e não existe sequer uma cidade a sério. Lisboa é uma avenida e três teatros, onde vão três escritores que têm quadros de três pintores. Nunca se passa nada, como nas aldeias, à excepção de crimes e intriga. Claro que Sócrates é um provinciano, Cavaco é um provinciano e o resto também. O que não se consegue perceber é porque Sócrates acusa de "provincianas" as críticas às suas proclamações contínuas e provincianas sobre o seu sucesso da presidência europeia. O primeiro-ministro esqueceu-se que o provincianismo é uma coisa boa em Portugal e que também é uma coisa boa para ele. Quanto às críticas, existem em todas as sociedades cosmopolitas.|
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