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por
Mário Bettencourt Resendes
provedor@dn.pt
O dia 3 de Novembro de 1948 ficou na história do jornalismo e da política norte-americana. Serviu - ou melhor, deveria ter servido... - de lição para a imprensa que, pressionada pelas chamadas horas de fecho, corre riscos mal calculados.
A manchete "Dewey defeats Truman", estampada na primeira página do Chicago Daily Tribune, anunciava a vitória eleitoral, nas presidenciais norte-americanas, do candidato que acabaria por sair derrotado. O jornal foi influenciado pelas sondagens e previsões dos comentadores e, sobretudo, pelos primeiros resultados da contagem, que apontavam para uma vitória de Dewey.
É certo que os tempos eram outros. Os inquéritos de opinião não tinham a fiabilidade dos nossos dias e as tecnologias de comunicação estavam longe da sofisticação de que hoje dispõem. Mas é também importante recordar que uma greve no jornal tinha afastado do fecho da edição alguns dos profissionais mais experimentados e o risco acabou por ser assumido por jovens com menor traquejo e prudência.
Limitados pelos prazos técnicos que podem desactualizar uma informação de última hora, os jornais aprenderam a resguardar-se na tradicional fórmula "à hora do fecho desta edição". É a regra, mas prosseguem as excepções, com consequências nem sempre agradáveis. Ainda esta semana, um dos concorrentes do DN foi obrigado a desculpar-se perante os leitores no dia seguinte a ter assumido como certa a vitória de Chavez no referendo realizado no domingo na Venezuela.
O caso que hoje ocupa a coluna do provedor não se reporta a um tema de primeira linha da actualidade, mas nem por isso deve ser subestimado. Tem a ver com o recente concerto de Jorge Palma, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Na edição de 21 de Novembro, o DN titulava numa das páginas da secção Artes: "Coliseu encheu para celebrar o 'fenómeno' Jorge Palma". O texto abria com uma apreciação positiva: "Foi ao som de Rosa Branca que Jorge Palma entrou em cena para uma noite que, à partida, parecia ganha, tal o entusiasmo logo manifestado nos instantes que antecederam a subida ao palco (...)À terceira música, Jorge Palma sentou-se ao piano e, aí, nasceu o primeiro grande momento desta noite de celebração (...) o triunfo, mesmo com uma voz longe do seu melhor, confirmava-se". A crítica alonga-se por mais algumas linhas, sempre num tom que presume uma apreciação favorável e passando para os leitores a ideia de que se tratava de um texto escrito após o final do concerto.
Ora, quem, no mesmo dia, consultasse o Diário Digital (foi o caso dos leitores Fernanda Ferreira e João Chora, que se queixaram ao provedor) deparava, seguramente, com estupefacção, com uma crítica ao concerto, assinada pelo mesmo jornalista, mas com uma tónica assaz negativa. Um caso de "Dr. Jekyl e Mr. Hyde?", pergunta, com inteira legitimidade, João Chora.
O repórter procura explicar-se: "A reportagem do DN foi feita 'em directo', ou seja, nos primeiros 30 minutos do concerto (por razões imperiosas do fecho do jornal) e, por essa razão, não aborda tanto os aspectos da prestação do próprio Jorge Palma, mas mais o da reacção do público (...) não há nenhum aspecto que considere falso na reportagem do DN. Já o texto publicado no Diário Digital foi escrito após o fim do es- pectáculo, que, diga-se, foi piorando com o aproximar do fim (...)." A subdirectora Catarina Carvalho complementa a explicação e tem, pelo menos, o mérito de "dar a mão à palmatória" a propósito de um erro em que o DN não deveria ter incorrido: "Têm razão os leitores. É um caso de boas intenções com maus efeitos. Porque queremos manter ao máximo a actualidade das nossas páginas, tentamos fazer a reportagem dos concertos ou espectáculos logo no próprio dia em que acontecem (...) evitamos assim textos requentados (...) foi o que fizemos com o concerto do Jorge Palma, enviando um repórter que assistiu ao princípio do concerto. Foi isso que relatou. Os nosso prazos de fecho, cada vez mais apertados, não nos permitiram ficar até ao fim. Normalmente isso não modifica a informação, mas desta vez modificou. Daí a disparidade dos dois textos". Catarina Carvalho acrescenta que o crítico é partilhado com o Diário Digital com o consentimento dos dois órgãos de informação e conclui: "Em mais um caso, a Internet levou a melhor."
O provedor não pode deixar de ser severo a propósito deste episódio. Em primeiro lugar, e ao contrário do que diz o jornalista na sua tentativa de explicação, há um aspecto falso, fundamental, na reportagem do jornal: os leitores são induzidos em erro ao pressuporem que se trata de uma crítica a um concerto e não apenas ao seus primeiros 30 minutos. Por outro lado, as "boas intenções" que Catarina Carvalho invoca não se compadecem com um jornalismo rigoroso. Das duas, uma: ou se atrasa a hora de fecho do jornal, ou, na impossibilidade desse recurso, utiliza-se a fórmula "à hora do fecho desta edição", inserida num texto mais curto e menos ambicioso, ou, eventualmente, na chamada fotolegenda.
Um comentário final ao lamento de Catarina Carvalho ("em mais um caso, a Internet levou a melhor"). Na concorrência directa com a imprensa escrita, a Internet levará sempre a melhor. Os jornais devem competir não com (ou contra...) a Internet, mas dentro da Internet, inseridos na nova plataforma e procurando tirar proveito das suas imensas potencialidades.
Aqueles que, nos jornais, encararem a Internet como o inimigo a abater, estão condenados à derrota. Para quem estiver interessado em algumas lições sobre combates desiguais, o provedor permite-se recomendar a leitura de Sun Tzu, no seu A Arte da Guerra. Está lá tudo - e não será por acaso que tem a reputação de ser um dos livros favoritos de Scolari...|
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