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por
NUNO GALOPIM
Como descobriu a música electrónica?
Fiz primeiro o ensino clássico, depois passei por grupos de rock. E, através de um colega de liceu entrei num grupo mais experimental ligado à televisão francesa e que era dirigido pelo Pierre Schaeffer, que foi o inventor da música concreta. Foi ele quem me ensinou que a música não era apenas feita de notas e acordes, mas também de sons. E que a diferença entre o ruído e o som musical nasce da intervenção do músico.
Essa era, contudo, uma música essencialmente experimental. A sua, depois, seguiu outro rumo...
Dez anos antes de Oxygene trabalhava nesses domínios. Fiz vários discos falhados, música de filmes, produzi artistas... Foram trabalhos práticos, mas sabia que uma outra coisa me chamava.
Como explica a mudança?
Fiz Oxygene perante uma espécie de indiferença geral. Em casa, numa cozinha transformada em estúdio caseiro, minimalista, com equipamento antigo... E já dizia para mim que, um dia, o tinha de voltar a gravar com equipamento a sério.
Daí esta nova gravação?
Precisamente. Quando a alta definição apareceu, e sob o pretexto do 30.º aniversário, senti que tinha chegado o momento.
Em meados dos anos 70, a música electrónica não experimental que se ouvia era, sobretudo, a alemã. Sentia que aquele não era o seu caminho?
A pop é uma música de partilha. Mas, na época, a música electrónica era sobretudo laboratorial. Ouvia o que acontecia, mas sugeria- -me paradoxos. O primeiro que ouvi foi Walter Carlos, que sugeriu a muitas pessoas uma ambiguidade sobre os sintetizadores. Ou seja, viam-nos como instrumentos que procuravam imitar os sons de outros. E assim se passava ao lado das verdadeiras potencialidades do instrumento... A seguir chegam os alemães, que faziam uma espécie de apologia da máquina. Usavam a música electrónica de uma forma expressionista, mecânica. Sobretudo os Kraftwerk (o que não impede que adore o que fizeram). Mas era uma música fria, robótica, desumanizada.
Procurava, antes, uma ideia de humanidade na electrónica?
Para mim aqueles eram os instrumentos mais sensuais que conhecia. Podia com eles fazer som como quem faz culinária. E procurava fazer uma música que não vivesse da repetição de acontecimentos, que não fosse automática. Em Oxygene não há sons que se repitam, não há sequenciadores.
Como numa peça sinfónica?
Mais tarde reflecti sobre essa afinidade com a música clássica. A composição de Oxygene é simples, mas longe de ingénua. Era diferente do que se fazia na música electrónica da época. E essa talvez seja uma das razões objectivas que justificam o seu sucesso. Há ali qualquer coisa na qual as pessoas se encontraram de uma forma sensual e não apenas intelectual.
Muitos associaram esta música a ambientes de ficção científica.
De facto, mas não eu. Gosto de ficção científica. Mas a minha música não a ligo ao espaço sideral. Antes ao espaço vital, ao que nos envolve. É uma música mais da biosfera que da estratosfera. Daí o facto de, ao longo dos anos, ter feito tantos trabalhos ligados a questões ambientais, com uma mensagem ecologista sem querer dar lições como outros têm feito. O artista deve passar mensagens do ponto de vista emocional e não dogmático.
Esperava o sucesso que o álbum obteve então?
De modo algum! Aquela música foi recusada por quase todas as editoras. Estávamos em tempo do punk e do disco... Não sabiam que música era aquela, sem cantor, sem single. Era um ovni para a produção da época. A minha própria mãe perguntava-me porque dei o nome de um gás a um disco... Depois do sucesso, o que era negativo virou positivo. O facto de ser francês funcionou como exotismo.
Como nasceu a sua relação com a música ao vivo em eventos ao ar livre. Outro "exotismo"?
Esta é uma música que nem é do espaço estratosférico nem da cave (como o rock). É da biosfera, do espaço público. Além disso, vivo obcecado pelo conceito do one off, do momento que não se repete.
Porque não deu ainda concertos em Portugal?
Já esteve para acontecer três vezes. Uma no Terreiro do Paço, outra na Expo, esta em Lisboa. E houve planos para o Porto. Mas nenhum se concretizou ainda. E tenho de tocar em Lisboa um dia. A luz da cidade lembra-me a de Lyon, onde nasci.
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