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Recurso a aborto ilegal continua

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FERNANDA CÂNCIO  

Mais de um quinto das mulheres que demandam a lisboeta Clínica dos Arcos, um dos três estabelecimentos privados certificados no País para interrupções de gravidez até às dez semanas por vontade da mulher, já terão ultrapassado esse prazo de gestação. Yolanda Hernandez, a directora da clínica, que apresenta este dado "com base em extrapolação" não tem resposta para elas. "Estamos acreditados para fazer interrupções até às dez semanas, e pronto." Quanto aos motivos por que as mulheres aparecem nessas circunstâncias, variam. "Umas talvez não saibam de quanto tempo estão, outras sabem mas querem ver se passa. E haverá aquelas que nem conhecem bem a lei."

O que acontece a estas mulheres? Remetem-nas para as clínicas espanholas do mesmo grupo (onde se fazem interrupções até mais tarde)? A resposta de Yolanda não é directa. "Elas sabem qual a forma de solucionar o problema. As pessoas sempre souberam, não é?"

Três meses após a entrada em vigor da nova legislação, é normal que haja ainda muita gente mal informada ou até sem informação nenhuma. Passar em tão pouco tempo de uma situação em que o aborto só era permitido em casos muito específicos (violação, perigo para saúde física e psíquica da mulher, malformações fetais) e que era lida pela generalidade da população como uma proibição total, para uma situação em que, tendo havido legalização até às dez semanas, poderá ficar a ideia de uma "liberalização total" (ideia que foi, aliás, propagandeada pelos opositores da mudança da alteração legislativa) pode resultar em total confusão.

"Sei de três casos em que mulheres foram a farmácias comprar Cytotec [misoprostol, um medicamento para o estômago com potencialidades abortivas], dizendo a quem as atendeu que era para abortar. E o medicamento foi-lhes vendido. Nem elas nem as farmácias pareciam ter consciência de que é ilegal o aborto efectuado fora dos estabelecimentos autorizados. É possível que haja ainda muita gente mal informada, que julga que como a lei mudou vale tudo, que passou a ser legal em todos os casos." Para esta técnica de saúde, são situações "extremamente preocupantes": "As pessoas continuam a correr o risco do ponto de vista da saúde e da vida, além do risco de serem processadas criminalmente. E tudo isto sem necessidade nenhuma." Porquê, então? "Uma disse-me que achou que o sistema legal era muito complicado e demorado, por causa do período de reflexão, e que ela queria despachar-se. Mas será que era isso?" De facto, nem todos os "erros" se deverão a confusões ou ignorância. O dono de um consultório do centro de Lisboa que se especializou em abortos (ilegais) até às 12 semanas confirma a ideia de que a informação não abunda, mas que o problema não será só esse.

"Temos tido, obviamente e como seria de esperar, muito menos pedidos. Mas ainda há senhoras que chegam aqui sem saber que podem recorrer ao sistema público. É espantoso, até porque o meu tipo de clientela não é de classe baixa". Com preços entre os 600 e os 700 euros e instalações de luxo, este clínico recebe também ainda mulheres que, embora informadas da mudança de lei, "ou pensam que é muito recente e que não vale a pena ir ao sistema público ou não querem expor o seu caso". Para além das que "estão nas nove semanas e não querem esperar mais, ou as que já passaram as 10". Se o tempo de gestação não ultrapassar as doze, o médico assume fazer esses abortos. "Mas desde Julho tenho feito muito poucos. Uns três ou quatro por mês". Quanto ao número de clientes que apareceram nestes três meses para esse acto específico, terão sido "de 60 a 90". A maioria, garante, "foi reencaminhada para os centros legais. Não tenho interesse em continuar a fazer isto nestes termos, não vale a pena o risco nem para mim nem para as clientes."

Uma enfermeira da zona de Lisboa que há mais de uma década leva a cabo interrupções de gravidez até às 8 semanas num quarto dos fundos da sua casa garante que também ela quer parar, apesar de continuar a ter "solicitações". "Algumas aparecem já com mais de dez semanas, outras ainda antes das oito. Às primeiras digo, como sempre disse, não; à maioria da outras remeto para a estrutura legal." Ainda assim, houve quem ainda encontrasse nela a solução para "o problema". Quatro ou cinco, garante, não mais. "Gente que não quer ser exposta, algumas repetentes... Pessoas por que tenho consideração. Não as quis deixar 'na mão'". Gente que prefere a clandestinidade e pagar mais - o preço dela, antes da nova lei, andava nos 500 euros, um aborto no sistema público é gratuito e nas clínicas privadas legais fica por menos 400 - e que a própria diz compreender mal. "Acho que não há necessidade de recorrer a pessoas como eu, que não têm as condições ideais." Aliás, garante ter vontade de fechar "este capítulo da vida". "Já não tenho emocionalmente vontade, não me estimula, quero dedicar-me a outras coisas. Fazia-o para resolver a situação, porque achava injusto ser proibido. As pessoas podem sempre dizer que era pelo dinheiro - mas não era, embora, claro, o dinheiro dê sempre jeito."|


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