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DIANA MENDES
Casos de trissomia evitáveis nos fetos de jovens grávidas
Mais de 60% das mulheres grávidas em Portugal não fazem o rastreio bioquímico. Em conjunto com a ecografia , o teste detecta, em 90% dos casos, o risco de o feto ter trissomia 21, entre outros problemas cromossomáticos. Entre as mulheres com menos de 35 anos, com menor risco, a lacuna pode justificar "o nascimento de mais bebés com este problema", disse ao DN Sérgio Castedo, director do laboratório Genética Médica de Diagnóstico Pré-Natal (GDPN).
Se por cada 700 nascimentos há um caso de trissomia 21, calcula-se que possam nascer 170 a 180 bebés com o problema em Portugal se não forem detectados. "Se metade dos casos ocorrem em mulheres acima dos 35 anos [idade em que fazem mais amniocenteses], um terço a metade dos casos podem passar desapercebidos aos especialistas", sobretudo tendo em conta que as ecografias das 12 semanas "falham com muita frequência", alerta Purificação Tavares, membro da direcção do colégio de genética médica da Ordem dos Médicos.
De acordo com a geneticista, o exame é "realizado a cerca de 35% das mulheres", dados que podem confirmar-se num relatório da Direcção-Geral da Saúde (DGS), que, em 2005, dava conta de 31 756 exames de rastreio bioquímico ao sangue da mãe, a que se juntam as amniocenteses realizadas sem este rastreio a mulheres com mais de 35 anos (8501).
Também Nuno Montenegro, director do serviço de obstetrícia do Hospital de São João, fala em "minoria", quando questionado acerca da percentagem de mulheres que fazem o rastreio pré-natal - ao todo há cerca de 106 mil nascimentos por ano. "Em Portugal, há apenas dois laboratórios a fazer este exame e, nos hospitais em que se fazem, o número é residual", considera.
As três clínicas (a DGPN estabeleceu um protocolo com a Clínica Joaquim Chaves em Lisboa), cujos responsáveis foram contactados pelo DN, fazem em conjunto 32 mil exames bioquímicos por ano. Se a estes dados se juntarem as amniocenteses feitas exclusivamente a mães com mais de 35, conclui-se que pouco mais de um terço das mulheres fazem a totalidade dos exames recomendados.
Exames são dispendiosos
A DGS reconhece a existência de franjas da população com cuidados de saúde reprodutiva inadequados, especialmente as mulheres com baixa escolaridade e fracos recursos e económicos. Apesar de o exame bioquímico, em conjunto com a ecografia das 12 semanas, avaliar correctamente o risco de um feto ter uma anomalia cromossomática, os exames não são totalmente comparticipados. "As mulheres têm de pagar 30 euros para fazer o rastreio bioquímico de primeiro ou segundo trimestre e 40 euros pelo rastreio integrado", explica Sérgio Castede.
As grávidas só não pagam se o fizerem num hospital ou se forem remetidas por um a uma das clínicas convencionadas. De outra forma, por exemplo, através de centros de saúde que não tenham acordos com os hospitais, "terão de levar uma declaração da ARS e pagar a parte não comparticipada", diz.
Se para algumas mulheres o valor do exame tem peso, a não realização destes testes complementares pode ser explicada com o facto de ainda não haver critérios definidos para o rastreio. Purificação Tavares refere que "é difícil implementar o rastreio porque o exame de sangue depende da ecografia, que muitas vezes tem a data errada. Logo, o relatório sairá errado", diz. Sérgio Castede lembra ainda que "muitos médicos estão pouco sensibilizados ou relutantes com facto de haver muitos falsos positivos (um em 20).
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