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Doris Lessing foi às compras e de volta a casa tinha um Nobel

por

JOSÉ MÁRIO SILVA  

Premiada soube a notícia pelos jornalistas, ao sair do táxi com sacos na mão

Quando viu uma multidão de fotógrafos e operadores de câmara à porta de casa, em Cricklewood (Noroeste de Londres), Doris Lessing pensou que estivesse a ser gravado um programa de televisão na sua rua. Foi só ao sair do táxi, afogueada com os sacos de compras, que a escritora britânica soube finalmente, pela boca dos jornalistas, o que o mundo inteiro já sabia havia duas horas. Ela, aos 87 anos, contra todas as expectativas (que apontavam mais uma vez o norte-americano Philip Roth como principal favorito), vencera a edição deste ano do Prémio Nobel da Literatura, anunciado em Estocolmo cerca do meio--dia, hora portuguesa.

Sentando-se num degrau, com o seu ar de avozinha pacata (cabelo branco apanhado, saia largueirona, certo desconforto nos gestos), Lessing respondeu então ironicamente à curiosidade da imprensa. "Estou satisfeitíssima. Agora vai haver muitos discursos e flores, o que é sempre agradável." A escritora, depois de ter ganho vários prémios importantes, como o Príncipe das Astúrias de Letras (2001), o David Cohen ou o Médicis para autores estrangeiros, considera ter conseguido, com o Nobel, o equivalente literário ao "flush royal" no póquer.

Lessing recordou ainda que o Comité Nobel lhe fez saber por interpostas pessoas, nos anos 60, que não gostava dela e nunca lhe atribuiria o prémio. Ao ouvir a justificação dos membros da Academia Sueca - para quem a autora tem sido a "cronista da experiência feminina, capaz de analisar, com cepticismo, fogo e poder visionário, uma civilização dividida" - não conteve o sarcasmo: "Que bom! Disseram mesmo isso? Então, é óbvio que gostam mais de mim agora do que gostavam antes."

Nascida em 1919, na Pérsia (actual Irão), Doris Lessing cresceu na Rodésia (actual Zimbabué), onde a família se instalou, numa quinta, quando ela tinha cinco anos. Apesar da educação católica, foi sempre ideologicamente de esquerda e uma fervorosa crítica dos governos racistas da Rodésia e da África do Sul, onde a consideraram persona non grata até 1995. À experiência biográfica, muito presente em toda a sua obra, sucederam na última fase os universos da ficção científica.

Saudado por figuras de peso, como José Saramago e Umberto Eco, o nome de Doris Lessing também provocou algumas reservas, havendo quem a considere uma escritora de segunda linha.

Prestes a completar 88 anos, a 22 de Outubro, Lessing receberá o prémio (no valor de 1,1 milhões de euros) a 10 de Dezembro, em Estocolmo.


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