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MANUEL RICARDO FERREIRA, N. Iorque *
Bill Clinton vai mesmo ser capa da edição de Dezembro da revista norte- -americana GQ. Mas a história sobre as causas humanitárias a que se dedica o ex-presidente esteve em risco de não ver a luz do dia. Porquê? Para ter acesso a esse trabalho, a revista masculina teria de deixar de fora um outro, sobre as tensões que se vivem no interior da estrutura da campanha de Hillary Clinton à presidência norte- -americana. De acordo com o jornal The Politico, foi isso que a candidata propôs, e aquilo que a revista aceitou.
No início do Verão, Hillary descobriu que a GQ tinha encomendado a história sobre as lutas internas em Hillaryland ao jornalista Joshua Green, editor da Atlantic Monthy, um trabalho que seria certamente negativo para a sua campanha.
Aliás, o pedido da revista havia sido feito ao mesmo Green que, há cerca de um ano, havia deixado Hillary furiosa, depois da publicação de um artigo em que analisava a carreira da senadora do estado de Nova Iorque.
Na altura, o jornalista escrevia: "Clinton não oferece grandes ideias nem causas para uma cruzada, admitindo ela própria, tacitamente, não haver sinais de bravura ao serviço de um ideal maior. O verdadeiro trabalho no Senado tem sido a reabilitação da sua imagem e da sua carreira política. A senadora tem muito sobre o que falar, mas não tem muito para dizer."
Se a campanha de Hil-lary Clinton é conhecida por ser extremamente eficaz junto dos media - conseguiu que a candidata, há duas semanas, fosse a todos os programas políticos de televisão no mesmo domingo -, isso significa que também é perita em fazer abortar a divulgação de aspectos que não lhe são favoráveis.
De acordo com o The Politico, o ultimato feito por Hillary à GQ foi claro: ou a revista deixava cair a peça sobre a campanha, ou não teria acesso a Bill Clinton. Nem todas as opiniões relativamente ao que aconteceu são convergentes, mas os factos são que a notícia sobre a candidata não saiu, e que o seu marido vai ser capa da publicação.
Joshua Green explica: "A GQ disse-me que o artigo era óptimo, mas que não queriam pôr em risco a peça sobre Bill Clinton em África." "Os Clinton não estavam satisfeitos e ameaçaram cortar o acesso a Bill se fosse publicada a história sobre Hillary", disse.
Jim Nelson, editor da GQ, afirma que as histórias não estavam relacionadas: "Hillary não matou o artigo; fui eu quem matou o artigo." "Embora Green seja um tremendo repórter, a história acabou por não ser satisfatória", justificou o responsável, que garantiu que "se tivesse uma peça óptima sobre Hillary teria-a publicado".
Mas é com Bill que vai vender a revista de Dezembro, onde o ex-político será considerado o "Homem do Ano". Nos últimos tempos, Bill teve a seu lado, quase permanentemente, um jornalista da GQ. George Saunders, escritor de Syracuse, Nova Iorque, viajou com o ex-presidente por África , em Julho, visitando com ele organizações e instituições que a Fundação Clinton apoia em Moçambique, Tanzânia, Zâmbia, Malaui e África do Sul.
Numa entrevista ao Syracuse Post--Standard, Saunders, que confessou ter votado no ex-presidente, disse que "um dos dons naturais de Clinton é toda a gente gostar dele e conhecê-lo, e por isso consegue reunir pessoas numa sala e fazer com que as coisas aconteçam". "Gosto da ideia de que nesta fase mais sénior da vida possa ir a sítios e escancarar as suas portas", afirmou.
Quando o jornal The Politico perguntou a Saunders se estava interessado em saber como tinha sido conseguido acesso a Bill Clinton, o escritor respondeu: "Não penso que queira saber." | *com CATARINA VASQUES RITO
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