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por
Anselmo Borges
padre e professor de Filosofia
As dúvidas de Madre Teresa de Calcutá quanto à existência de Deus parece que afligiram mais os não crentes do que os crentes.
Na obra recém-publicada Mother Teresa: Come Be My Light - Madre Teresa: vem e sê a minha luz -, com correspondência da religiosa célebre, aparece uma Madre Teresa em profunda crise espiritual, que chega a duvidar da existência de Deus. "O silêncio e o vazio são tão grandes que olho mas não vejo, escuto mas não oiço, a língua move-se durante a oração mas não fala", escreveu numa das cartas.
Aquele Cristo que ela, na entrega do Prémio Nobel da Paz, declarou que "está nos nossos corações, nos pobres que encontramos, no sorriso que oferecemos e no que recebemos", deixou-a no vazio espiritual durante parte de uma vida torturada pela sua ausência.
Houve então quem chegasse a pôr em questão a sinceridade de Madre Teresa e a verdade da sua vida. Teria ela colocado uma máscara? E se a sua existência não tivesse passado de hipocrisia?
Também alguns crentes, incluindo clérigos, sentiram um abalo profundo, vindo a terreiro com declarações no sentido de que não tinha tido dúvidas. Tratar-se-ia apenas de uma prova de Deus e daquela ausência de consolação que a fé concede.
Mas não escreveu São Tomás de Aquino, doutor da Igreja, que a fé convive com a dúvida? Sem esta convivência, ainda seria fé?
Não falaram os místicos maiores - Teresa de Ávila, João da Cruz - da "noite escura"? Também Santa Teresa de Lisieux, outra doutora da Igreja, foi assaltada pela tentação da dúvida, parecendo-lhe, nas vésperas de morrer, que lhe diziam: "Crês que um dia sairás das trevas que te rodeiam. Avança! Avança! Alegra-te com a morte, que te dará não o que esperas, mas uma noite mais profunda ainda, a noite do nada."
O cardeal Julián Herranz veio lembrar que estas crises são normais: "A vida dos santos está cheia de confissões parecidas, pessoas que provaram o deserto da noite da fé." E lembrou Jesus, que do alto da cruz rezou: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?"
Bento XVI, que, no antigo campo de concentração nazi de Auschwitz, tinha perguntado onde estava Deus enquanto acontecia todo aquele inominável horror do Holocausto e porque é que se manteve em silêncio, relembrou, a propósito de Madre Teresa, que "todos os crentes sabem sobre o silêncio de Deus."
Como dizia o filósofo Unamuno, nem mesmo o crente mais crente deixa de ser atravessado pela dúvida nem o descrente mais descrente por um "talvez". Também o teólogo Joseph Ratzinger escreveu: "O crente e o não crente participam, cada um à sua maneira, na dúvida e na fé. Nem um nem outro podem subtrair-se completamente à dúvida e à fé. Talvez precisamente a dúvida, que impede um e outro de se fecharem totalmente em si mesmos, pudesse tornar-se o lugar da comunicação. Ela evita que ambos girem exclusivamente à volta de si próprios; abre o crente ao que duvida e o que duvida ao que crê; para o primeiro, ela é a sua participação no destino do não crente, para o outro, a forma como a fé, apesar de tudo, permanece nele um desafio."
Deus não é evidente e a fé não tem a certeza da lógica ou das ciências empírico-matemáticas. Como diz o próprio étimo - fides -, a fé é confiança, isto é, entrega confiada a alguém - no caso da fé religiosa, a Deus. Tem razões e a segurança própria da confiança. É casada com a esperança e o amor, em co-implicação: a fé alimenta a esperança e o amor, a esperança anima uma e outro, o amor e a esperança confirmam e aprofundam a fé.
Acreditar em Deus implica acreditar no Homem, sendo, por vezes, mais fácil acreditar em Deus do que acreditar no Homem. Como podia Madre Teresa, no meio da miséria bruta e degradante - a "lixeira" da Humanidade - ficar imune à dúvida?
Como ela dizia, para lá da pobreza material, a pobreza maior é a de não ser amado, querido e viver em solidão. Então, a prova e o milagre da fé de Madre Teresa foi o amor vivo, numa dedicação incondicional e sem desânimo, aos mais pobres dos pobres. A fé é um combate que se ganha no amor. |
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