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por
ANA MARQUES GASTÃO
VASCO NEVES (imagem)
Escreveu uma história de arte, sexo, amor e morte na Espanha de 80. Castelos de Cartão é um livro sobre a relação entre liberdade e ciúme?
Sobre a glória artística que está, de algum modo, ligada à liberdade e ao poder e, portanto, ao ciúme. Tudo funciona entre dois eixos, o do amor, que circula em torno de Jaime, e o do talento, à volta de Marco. María José é o centro da história, recolhe tudo e decide. Há uma dimensão paradisíaca entre todos que se quebra, a harmonia falha. Não quis criar um triângulo (2 + 1), mas um trio. É uma história de amor entre três pessoas.
Por que motivo quis contar a história do ponto de vista de María José?
Porque é muito complexa e para que houvesse uma certa contenção. Se fosse contada por um homem - por existirem três figuras nesta relação - seria mais excessiva. Não é só uma história de sexo, há amor entre as personagens numa época (anos 80) em que a mulher se sente mais cómoda a falar destes assuntos.
Refere-se a uma liberdade absoluta em Castelos de Cartão. Isso existe?
Não, fora dos romances não existe, mas há graus de liberdade, o que é um bem raro, histórica e colectivamente. Em Espanha, nos anos 80, estivemos bem próximos dela.
Não quis pensar sobre a impossibilidade?
Sim, a epígrafe de Lorca fala disso: "Pero el dos no ha sido nunca un número porque es una angustia y su sombra." Castelos de Cartão é também um romance sobre a impossibilidade de levar por diante uma história até ao seu limite, sobre o sonho e a fragilidade. Sendo felizes, Jaime, Marco e María José situaram-se à margem de todas as convenções. Talvez seja a extravagância que termina com a relação. No fundo, trata-se de uma história estranha e rara de amor que acaba quando começa uma história de amor normal.
Um romance triste?
O romance mais triste que escrevi.
Fala no livro de impotência, de frigidez, de vigor masculino. Quis inserir essas temáticas nos 20 anos das personagens?
Castelos de Cartão é sobre a aprendizagem, a responsabilidade e a irresponsabilidade. Poderia ter tratado esses temas noutras idades mais maduras, mas não quis. Há um lado iniciático nesta história de descobertas.
Quis falar sobre a inocência?
Bem, também sobre a leviandade.
E sobre o desaparecimento? É também uma história de perdas?
Se pensarmos que se trata de uma história de amor (de vida, de trabalho), que fracassa, sim. Todos se perdem. Num triângulo triunfa alguém, num trio não, perdem os três. Castelos de Cartão é também um enredo sobre o desastre. Une-os a arte, mas o único que consegue vencer nesse domínio é Marco. E Marco é feliz? Não.
A arte, que une as personagens, pode ser uma metáfora da escrita que é a sua vida?
De algum modo sim. De qualquer maneira, estudei História de Arte para escrever este romance e conversei com amigos meus, pintores e galeristas. Documentei-me, portanto. Mas o que me interessa mais é que a questão do talento, da ambição, do malogro, do risco que se liga a todas as artes, é-lhes comum.
O corpo é sem culpa nos seus romances. Como reage a Espanha católica?
Nunca tentei ser apóstola de nada, mas consegui, desde As Idades de Lulu, escrever sobre o corpo com naturalidade, exactamente como os homens. Só que de um ponto de vista feminino. Espanha é maioritariamente católica, mas as pessoas não seguem a norma.|
Que distingue a geração beatnik, vagabunda e escandalosa, da sua, a dos anos 80, em Espanha? Há pontos comuns?
Em Espanha foi uma época danada. Quando Franco morreu, eu era adolescente, e vivi numa cidade adolescente, num país adolescente. Fomos, talvez pela liberdade, uma geração bendita. Acreditávamos que o mundo iria numa direcção e foi na outra. A geração beatnik não tinha a conotação política da nossa, que lutou contra uma educação castradora. Pagámos um preço muito alto por isso: a droga, a sida... Existia, no entanto, um grande desejo de experimentar e de aventura. Aí há pontos de contacto entre ambas.
Como vê a Espanha de hoje?
Ficou um país parecido com os outros que o rodeiam. Para o bem e para o mal. Não conseguimos uma Espanha mais livre, mais progressista e igualitária. Agora os conservadores são mais conservadores do que nos anos 80 e as pessoas de esquerda são menos de esquerda do que na época. O espaço público não tem defensores, vinga um capitalismo sem regras, devorador. A comunicação social está controlada. Só vozes isoladas proferem um discurso de tendência crítica.
Acha que há um franquismo sociológico?
Emocional, mas a direita modernizou-se. As estruturas neoconservadores são muito fortes. Há mais oposição, mais liberdade formal, mas, por mais que gritemos, não nos ouvem.
Prefere narrar a reflectir?
Sou uma narradora pura. Reivindico a ficção como forma de reflectir sobre a realidade.
Advoga que o escritor seja um porta-voz?
O escritor deve ser porta-voz da sociedade civil. Gosto de colaborar em causas de bem.
Que é resignação para si?
Uma tentação irresistível.
Feminismo?
A única revolução do século XX com êxito.
Esquerda?
O meu lugar no mundo.
Desejo?
O que faz viver os seres humanos.
Morte?
É feia.
Amor?
Estado de graça.
Escrita?
A minha vida possível.|
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