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Música ajuda crianças a falarem melhor

por

FILOMENA NAVES

RANDY FARIS-CORBIS (imagem)  

Estudar música e praticá-la é para muitos uma fonte de prazer. Mas os benefícios da aprendizagem e da actividade musical não ficam por aqui. Além do impacto positivo na organização das células do córtex cerebral, demonstrado nos últimos anos por vários estudos, a música também melhora os mecanismos subcorticais ligados ao discurso verbal e à linguagem. E, dizem os cientistas, é um bom antídoto contra a iliteracia.

Esta é a conclusão de um estudo publicado hoje na Proceedings of the National Academy of Sciences por investigadores das universidades Northwestern, dos Estados Unidos, e de Helsínquia, Finlândia, que testaram os desempenhos linguísticos e verbais de um grupo de 29 voluntários músicos e não músicos.

Os resultados mostraram que nos diferentes parâmetros envolvidos no processo da linguagem - descriminação dos diferentes sons, na sua altura, entoação e duração, leitura dos lábios dos interlocutores e na própria emissão dos sons - os músicos obtiveram sempre melhores desempenhos que os não músicos.

Os músicos, explicam os cientistas, usam todos os seus sentidos quando estão a executar uma peça musical. Olham para a partitura e para os outros músicos ou o maestro, lêem os lábios e outros sinais dos companheiros que são essenciais à boa execução por parte de todo o grupo, e estão eles próprios envolvidos numa série de movimentos e sensações, num conjunto complexo de estímulos sensoriais e desempenhos diferenciados.

Este processo multissensorial, explicam os cientistas no seu artigo, mobiliza as mesmas estruturas subcorticais (sob o córtex cerebral) que estão envolvidas no discurso verbal e na leitura e assim melhora o desempenho também a esse nível.

Estudos dos últimos anos já haviam demonstrado que a aprendizagem e a prática musical moldam e enriquecem as redes neuronais no córtex cerebral dos músicos. E estes, em consequência, têm em geral melhores desempenhos cognitivos do que os não músicos, nomeadamente em áreas como a matemática e a linguagem. Um dos estudos que ficou célebre, publicado na revista Nature no início da década de 90, acabou mesmo por cunhar a expressão "efeito Mozart" para designar as potencialidades da música daquele compositor setecentista a esse nível.

Com o estudo agora publicado, a equipa liderada por Nina Kraus, da universidade Northwestern, vem agora demonstrar que a aprendizagem da música também robustece e melhora as estruturas das regiões subcorticais envolvidas na linguagem.

"O processamento audiovisual estava muito mais desenvolvido nos músicos do que nos não músicos e os primeiros também se revelaram muito mais sensíveis a alterações subtis na altura dos sons, tanto no discurso verbal como na própria música", explicou a coordenadora da pesquisa, sublinhando que este estudo "mostra que o processamento cognitivo complexo da música afecta repercute-se numa fase mais primária desse processo e acaba por moldar também o circuito sensorial nele envolvido" nas regiões subcorticais do cérebro.

Trocado por miúdos, esta descoberta mostra que a música, ao moldar estes circuitos sensoriais primários, tem enormes potencialidades enquanto instrumento educativo e também como antídoto contra os distúrbios de linguagem e a iliteracia, garantem. Ou seja, é mais uma vantagem a acrescentar ao "efeito Mozart". |


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