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MARIA JOÃO CAETANO
O homem português é "moderno" mas só elas é que passam a ferro
Karin Wall apresenta hoje, no ICS, em Lisboa, resultado de estudo
"A mulher está sempre mais sobrecarregada. Não vamos dizer o contrário. Se me perguntar se eu passo a ferro, eu vou-lhe dizer que não. Mas se tiver que passar a ferro, passo. Não tenho problemas com isso. Ajudo. Há um apoio, digamos que é uma pequena muleta." (António)
António é um homem comum. Não se importa de realizar qualquer das tarefas domésticas mas, para ele, como para a maioria dos homens, a expressão certa a utilizar é "ajudar em casa". A casa (ainda) é da responsabilidade das mulheres, apesar de haver uma evolução inegável no que toca a comportamentos e valores dos homens nos últimos 30 anos - esta parece ser a principal conclusão do trabalho O Lugar dos Homens na Família em Portugal, investigação liderada por Karin Wall, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e que hoje vai ser apresentada num seminário com o mesmo nome no ICS, em Lisboa.
Os investigadores sublinham "a consciência que todos o homens revelam possuir acerca da mudança nos papéis e identidades masculinas". Mas os homens também sabem que essa mudança é impulsionada pelas mulheres, cuja entrada no mundo do trabalho é um dado inquestionável e com efeitos na vida conjugal (alterando as relações de poder) e na vida familiar e doméstica (a divisão das tarefas é, mais do que uma vontade, uma necessidade).
"Ainda sinto que há umas coisinhas que devem ser elas a fazer, por exemplo, tratar dos miúdos. Eu faço tudo mas sinto que é o papel dela. Não é bem machismo, é porque eu preciso de trabalhar, até por razões familiares, para ganhar mais, não é? Sinto que ela tem que tomar conta, senão não consigo trabalhar. Acho que isto tem mais a ver com o aspecto profissional do que propriamente com discriminação." (Francisco)
De acordo com os investigadores, actualmente, se "o modelo de um homem cônjuge e pai, autoritário e "chefe de família" está definitivamente posto em causa", a verdade é que, por outro lado, não conseguimos ter um modelo familiar totalmente igualitário e baseado na co-responsabilização. "Não encontrámos nem os modos tradicionais de construção do lugar do homem na família, nem a concretização dos ideais mais modernistas", escrevem os investigadores. "A maioria dos homens encontra-se algures entre um pólo e o outro, tendo que enfrentar imperativos e solicitações contraditórias", muitas vezes geradoras de tensões, por exemplo, com a conciliação "família-trabalho" - e não deixa de ser engraçado verificar que este é um problema que já não se põe só para as mulheres, cada vez mais os homens são forçados a arranjar soluções para darem resposta às solicitação parentais, como levar os filhos ao médico ou participar nas reuniões da escola, sem prejudicar o emprego.
Isto acontece, conclui este estudo, porque existe uma tendência clara para "uma maior entrada do homem na família", o que pressupõe também a mudança de um modelo de pai ausente, que se limita a proporcionar um nível de vida adequado, para um pai que, cada vez mais, quer estar presente nas etapas de crescimento dos filhos. "Os filhos são os principais agentes de mudança. São eles a solicitar a presença e o companheirismo do pai."
"A minha ausência é uma sobrecarga para a minha mulher e, por outro lado, não quero que a minha filha esteja aí sozinha, sem eu estar presente por grandes temporadas. Por isso, limito-me os horários. Tenho um escritório em casa e trabalho à noite." (Pedro)|
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