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50 anos para celebrar a insatisfação de Kerouac

por

ISABEL LUCAS  

Chamam-lhe a celebração da amizade

Sal Paradise tem 50 dólares no bolso e sai de casa sem dia para voltar. Sal Paradise não é personagem ficcional, antes o nome que Jack Kerouac decidiu dar a si mesmo num romance inaugural. Não o primeiro que escreveu mas aquele que mais viria a influenciar uma geração.

Sal não é ficção, nem tampouco On the Road, o livro em cujas páginas Sal deixa Nova Iorque rumo a Denver à procura de Dean Moriarty (Neal Cassady) companheiro de uma viagem interminável onde encontram Carlo Marx (Allen Ginsberg) e Old Bull (William Burroughs). Outros nomes para outras tantas personagens de verdade que compõem, com Kerouac, o núcleo duro da Beat Generation.

Era o início de um longo périplo que, na edição portuguesa da Relógio d'Água, se chama Pela Estrada Fora. Escrito em apenas três semanas, em 1951, enquanto Kerouac vivia com a sua segunda mulher, Joan Haverty. Dactilografou Pela Estrada Fora num longo rolo de papel, feito com folhas de quatro metros coladas umas às outras, sem margens, a um espaço e sem parágrafos e, contrariamente ao que se afirmou na época, garante que não usou qualquer espécie de estimulantes durante o processo criativo.

Pela Estrada Fora seria publicado pela primeira vez em Abril de 1957. Fez agora 50 anos, número redondo que ajuda a recuperar para a actualidade um dos livros míticos da história da literatura e faz de 2007 um ano Kerouac. Um livro que antes de ser publicado mereceu o seguinte comentário de Truman Capote, escritor contemporâneo de Kerouac: "Isso não é escrever, é fazer historiografia". E o insulto valeria a publicação pela Viking Press, em 1957.

Que livro é este? É sobretudo autobiografia, memória até à fronteira em que essa se aproxima da ficção, da invenção, no limite do estado de consciência. É a descoberta de uma certa América, a do pós-guerra, por dois amigos. Uma viagem em estradas secundárias nas quais o relógio não conta. Só contam os encontros. Com vagabundos, bêbados em bares perdidos e conversas intermináveis regadas a cerveja, fumadas a marijuana, ao ritmo da boleia, ao som do jazz de Nova Orleães, com os trabalhadores da Califórnia mexicana e os músicos de São Francisco.

É a América costa a costa, expressão tantas vezes repetida e tornada roteiro de aventureiros pós-Kerouac, mas raramente entrando no turbilhão de vozes e emoções e discussões e esse "sem tempo" que tornam a cartografia de Pela Estrada Fora, acima de tudo, uma cartografia intelectual.

O livro, relato livre de uma experiência feito numa linguagem sem tabus, resulta de uma verdadeira viagem pessoal pela geografia americana que demorou cerca de dez anos. Quando foi publicado torna-se de imediato um sucesso editorial e o seu autor ícone de uma geração de gente inquieta como ele, que o olha como mentor e o nomeia seu porta-voz.

Kerouac tinha 35 anos, era famoso e a fama assustou-o. Pelo vazio, haveria de confessar.


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