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PATRÍCIA VIEGAS
Rússia e EUA impediram a detenção de Karadzic
Líderes sérvios da Bósnia procurados pelo TPI-J gozaram de protecção
A Rússia e os Estados Unidos, com a conivência de países europeus como França, Alemanha e Reino Unido, bloquearam sistematicamente a detenção e julgamento do ex-líder político sérvio bósnio Radovan Karadzic ao longo da última década.
A revelação é feita em livro por Florence Hartmann, ex-porta-voz da procuradora-geral do Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPI-J), Carla del Ponte, entre 2000 e 2006. Paix et Châtiment (Paz e Castigo) foi ontem publicado em França e está disponível na Amazon.
Nos extractos já divulgados, pelo Le Monde, Florence recorda uma reunião entre Bill Clinton, Jacques Chirac, Tony Blair e o ex-chanceler alemão Helmut Kohl no Eliseu, em França, em Maio de 1997.
Chirac, então presidente francês, queria vingar dois pilotos franceses que os sérvios bósnios abateram em 1995 e, por isso, insistia em que o Ocidente obtivesse informações que levassem à detenção de Karadzic.
Mas, no final, foi convencido por Bill Clinton, na altura presidente dos EUA, de que não valia a pena insistir, pois os russos não aceitavam que qualquer passo nesse sentido fosse dado sem o seu total consentimento.
Mais tarde, diz Hartmann, Chirac disse a Del Ponte que Boris Ieltsin, presidente russo entretanto falecido, enviaria um avião para tirar Karadzic da Bósnia caso fosse necessário. Isso aconteceu, em 1997, quando as tropas da NATO patrulhavam a Bósnia.
Karadzic permanece ainda em fuga, tal como Ratko Mladic, ex-líder militar dos sérvios bósnios durante a guerra na Bósnia (1992 a 1995). Ambos são acusados de genocídio pelo seu papel na morte de oito mil homens e rapazes muçulmanos bósnios no enclave de Srebrenica.
Mais recentemente, em 2004, as forças norte-americanas avisaram Karadzic de que o novo Governo da Sérvia (herdeira da Jugoslávia) se preparava para o prender. Quanto a Mladic, o Tribunal de Haia chegou a conhecer a sua morada, deu-a à CIA, mas nunca obteve resultados.
Hartmann refere que os grandes países agiram assim para evitar que um julgamento revelasse que conheciam, antes de 1995, os planos do líder jugoslavo, Slobodan Milosevic, instigador do conflito, mas ficaram a assistir impávidos e serenos, negociando com todos os protagonistas. O mandato de Carla del Ponte termina no final deste ano e a ONU fixou para 2010 a data limite de funcionamento do TPI-J. Milosevic morreu entretanto.
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