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Portuguesas desvendam papel de molécula

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FILOMENA NAVES  

Três investigadoras do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, Mónica Bettencourt Dias, Ana Martins e Inês Ferreira, descobriram uma molécula chamada SAS-6, que define os alicerces sobre os quais se forma uma pequeníssima, mas essencial, estrutura da célula: o centrossoma. A novidade, que faz hoje capa da revista Current Biology, resulta de um trabalho de mais de dois anos, iniciado por Mónica Dias na Universidade de Cambridge, que envolveu colaboração internacional, moscas da fruta mutantes e até modelagens com plasticina. Com esta nova peça no puzzle, as cientistas portuguesas abrem também caminho a novas investigações na área do cancro.

O centrossoma é uma estrutura celular minúscula, localizada junto ao núcleo onde se encerra a informação genética (DNA), que está envolvida "numa diversidade de processos biológicos, desde a multiplicação celular ao próprio movimento e forma da célula", explica Mónica Dias, que dirige no IGC o laboratório de Regulação do Ciclo Celular e que coordenou o estudo agora publicado.

Em Maio, a equipa liderada por esta investigadora publicou na revista Science uma primeira descoberta sobre a formação do centrossoma. Mergulhando no minúsculo mundo da célula, as jovens investigadoras portuguesas descobriram que para o centrossoma se formar é essencial a presença de uma molécula chamada SAK.

Com o artigo publicado hoje, as cientistas do IGC dão mais passo e colocam uma nova peça no puzzle. A peça chama-se SAS-6. Explica a coordenadora da pesquisa: "Utilizámos mutantes da mosca da fruta que não têm a SAS-6 e outros que têm um excesso desta molécula para perceber a sua função neste processo". O resultado foi a formação de diversas estruturas desvendadas semanalmente pelo grupo italiano da universidade de Siena que colaborou no trabalho com a microscopia electrónica. "Enviávamos as amostras por correio expresso à segunda-feira, elas chegavam a Siena na quarta e na segunda-feira seguinte recebíamos os resultados por email", conta Mónica Dias.

Mas perceber qual era exactamente a estrutura-base (os tais alicerces) sobre a qual se formava depois o centrossoma não foi uma coisa imediata. "Obtínhamos várias estruturas, então decidimos usar plasticina para fazer modelos, como fizeram Watson e Crick, quando construíram estruturas até descobrirem a dupla hélice do DNA", lembra Mónica Dias divertida. Mas as investigadoras do IGC também tiveram o seu prémio, com a ajuda da plasticina. "A SAS-6 induz a formação de uma espécie de um tubo-esqueleto a partir do qual se forma depois o centrossoma", explica a coordenadora da pesquisa. O trabalho demonstrou também que um excesso da SAS-6 leva à formação de muitos centrossomas anormais, algo que ocorre em doenças como o cancro, o que abre novas perspectivas de pesquisa.|


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