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por
Vasco Graça Moura
escritor
Os dicionários definem elite como "conjunto das pessoas consideradas como as melhores, as mais notáveis de um grupo, de uma comunidade" (Petit Robert), ou "o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente num grupo social" (Houaiss). Também já houve quem, a propósito de Kennedy e da elite reunida à sua volta, tivesse usado a expressão "the brightest and the best".
No contexto da actual disputa no interior do PSD e num dos discursos em confronto, há uma tendência populista muito clara para a depreciação da elite do partido e a proposta da sua substituição, ao sabor da vontade das bases, como forma "autenticamente" democrática de assegurar a renovação e a vitória dos sociais-democratas.
Trata-se de uma forma de radicalismo pouco saudável, que visa iludir as próprias bases quanto a uma sua pretensa infalibilidade de escolha e as deixa desprotegidas quanto a todas as manipulações e oportunismos paroquiais.
Escamoteia-se que o PSD sempre alcançou bons resultados quando foi comandado por uma elite, podendo mesmo dizer-se que só nessas ocasiões conseguiu ser o maior partido português: Sá Carneiro e Cavaco Silva souberam rodear-se responsavelmente de uma elite e dirigi-la.
Contra as elites se pretenderia varrer, em nome do basismo, todo o capital de experiência, de conhecimento, de capacidade de agir, de aptidão para realizar, que foi entretanto acumulado por alguns e que é indispensável ao partido e ao País.
Uma elite política não se improvisa. Nem se pode partir do princípio de que as bases a não queiram nos órgãos do partido.
Há os que invocam as bases a torto e a direito numa febre de autopromoção que atinge as raias da patologia histriónica. Mas mesmo esses não deixam de se inculcar, claro está, como membros de uma elite, pelo que não é sério que se ponham a titilar uma espécie de coeficiente de irracionalidade das bases.
O objectivo de todas as políticas de educação, de formação, de qualificação profissional é o de contribuir para a criação e alargamento de uma elite. Toda a gente sabe que o País precisa seriamente dela e concorda com este diagnóstico.
E é isso o que faz quem precisa de recorrer a um médico, a um advogado, a um arquitecto, etc., na vida de todos os dias: procura assegurar, tanto quanto possível, os serviços do melhor profissional, de alguém que é reconhecidamente um membro da elite do sector.
Assim também em política. Quando se escolhe alguém, valoriza-se o seu perfil e o conjunto das suas aptidões, da sua experiência, do seu currículo, das provas dadas, para um determinado fim político em vista.
A renovação das elites é, regra geral, um tanto ou quanto lenta dentro do grupo em que se inscrevem, e podem ocorrer entropias nessa dinâmica. Implica um gradualismo transgeracional em que os mais antigos coexistem com os mais recentes, por vezes, é certo, em conflito destes com aqueles, seja por divergências de fundo, seja por veleidade de disputa das posições de mando, mas sem que se possa fazer tábua rasa do capital e da força que os primeiros representam. Na verdade, em política, só as elites inspiram confiança e garantem o sucesso. Por isso, e porque se vive em democracia representativa e não em democracia directa, é normal que as escolhas sejam feitas por um sistema em que intervêm, em proporções devidamente calibradas, órgãos partidários aos quais as bases deram mandato para exercerem as suas atribuições e prosseguirem os fins institucionais. De outro modo, eles nem poderiam concretizar o programa com que se apresentaram, nem poderiam ser responsabilizados pelos insucessos.
É natural que se verbere o carreirismo, o apego ao poder, ou mesmo a incompetência. Mas esses fenómenos negativos não podem ser baralhados abusiva e manipulatoriamente com a designação das elites no sentido de que venho falando. Eles tendem sempre a ocorrer, em maior ou menor grau, seja qual for a elite designada e a jusante dela.
Sem uma elite é que o partido não vai a lado nenhum. E num país em que até o Bloco de Esquerda tem uma elite dirigente, seria inconcebível que o PSD dispensasse a sua...
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