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Nova geração de sócios sacode a poeira do Grémio Lisbonense

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KÁTIA CATULO

TIAGO LOURENÇO (imagem)  

As regras de um jogo de cartas podem levantar muita discórdia entre os amigos. Joaquim Barão gosta de "dois dedos de conversa" entre uma cartada e outra, mas Américo Pires exige silêncio absoluto: "Não se pode abrir o bico." Só que ninguém consegue prender a língua ao Barão: "Ficar calado é coisa que eu não consigo." E, por isso, são raras as sessões de canasta ou de dominó que não acabam em zaragata. A zanga desaparece antes da rodada seguinte, porque, de outro modo, os dois jogadores não estariam todos os dias no Grémio Lisbonense, em Lisboa.

A associação cultural e recreativa, fundada no Rossio em 1842, é a segunda morada de dezenas de pensionistas, mas todos eles poderão estar na rua em pouco menos de duas semanas. O proprietário quer expulsá-los do edifício 226 da Rua dos Sapateiros e o tribunal já emitiu uma ordem de despejo que terá de ser executada até 6 de Setembro. Os sócios estão avisados, mas nenhum deles coloca sequer a hipótese de deixar o Grémio Lisbonense.

Abandonar as instalações da associação implicaria ter de descobrir um novo poiso para estarem outra vez juntos. É missão difícil nos dias que correm. Natário Pedro, Américo Pires ou Joaquim Barão passaram por várias colectividades ou clubes recreativos da capital à procura de um sítio para passar as tardes. "Todos os clubes onde estive foram fechando e acabei por vir parar aqui", desabafa Américo Pires.

O Grémio passou a ser como uma casa para os três amigos. Toda a gente sabe onde encontrá-los e até as respectivas mulheres acabaram por se conformar com as prolongadas ausências dos maridos. "Quando chego a casa, ela pergunta-me na brincadeira se vim trocar de camisa para voltar a sair", confidencia Américo entre risos. O que vale é que as famílias perceberam que "isto é como um bichinho que se mete aqui dentro", justifica Natário Pedro. Bastam dois dias sem entrar na associação, para o bancário reformado começar a sentir uma "angústia a dar-lhe cabo do juízo".

Dois dias sem ir ao Grémio é coisa que nunca aconteceu a Joaquim Barão. Vive em Cascais e, desde 1992, vai todos os dias ao "clube" jogar ou ver os outros jogar: "Não tenho família e estou velho para namorar", diz o pensionista de 75 anos enquanto lê o jornal do dia anterior.

O quotidiano da associação não é só feita de jogos e conversas de homens sentados à mesa. Há novos sócios que entraram no início do Verão e trouxeram outros hábitos. Dina Martins e Olga Cruchinha têm 30 anos e começaram em Julho a explorar o bar do Grémio. Em poucos dias assumiram também outras funções. O salão do clube passou a servir de palco para espectáculos, tertúlias de banda desenhada ou workshops para crianças. "No fundo acabámos por recuperar uma vocação antiga do Grémio, que já teve um clube de leitura ou sócios que davam explicações aos miúdos", conta Olga.

Mais do que isso acabaram por convencer os mais velhos a participarem nas suas iniciativas. Américo e Joaquim já espreitaram as festas organizadas pela nova geração de sócios. "Vieram por curiosidade e acabaram por ser dos últimos a sair", recorda Dina, abafando as risadas com as mãos.

Olga e Dina também descobriram "coisas novas" com os sócios mais antigos. Ainda não são as parceiras ideais num jogo de cartas, mas foi com os veteranos que aprenderam mais truques. A amizade entre as duas gerações está no início, mas já houve uns amuos que balançaram a relação. "Adoptámos alguns senhores como nossos avós, mas é melhor não revelar quem são porque isso já provocou alguma ciumeira." |


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