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por
Baptista-Bastos
escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt
Sabe-se o nome do responsável pela construção, em Portugal, de dez estádios - três, quatro ou cinco dos quais não servem, rigorosamente, para coisa alguma. Parece que o azebre os invade e as ervas daninhas os espreitam, com persistência implacável. A impunidade corre mais do que depressa. Quero dizer, nestas modestas palavras: ninguém vai preso, ninguém é apontado à execração popular. Até há quem seja promovido e chegue a altas funções na Nação. A asséptica castidade dos jornalistas "desportivos" impede-os de comentar a pouca-vergonha. E quando a imprensa, ou parte dela, abdica de criticar, aniquila o que a fundamenta: o compromisso pedagógico.
Metade do custo desses estádios resolvia muitos problemas sociais. Mas vivemos de programas sem memória e isentos do sentido de realidade. A festa insone tem sido abrilhantada por políticos medianos, que substituíram a grandeza pela grandiosidade, os projectos pelas aparências.
Façamos uma equação sóbria: quantos milhões se poupariam, quantos problemas encontrariam solução plausível, acaso as frotas de carros de topo de gama dos ministérios, dos municípios, dos diversos serviços da administração pública não fossem, amiúde, substituídas? A dieta do "tenha paciência" e dos "sacrifícios necessários" é-nos aplicada, com deliciosa intimidade e duvidosa eficácia, pelo ministro Teixeira dos Santos. Anteriormente, outros, da mesma pasta, insistiram no mesmo. É uma inspiração sucessiva, que só toca no batente dos que andam com o coração desnivelado, incerto e aflito.
A banalidade das deficiências, a vulgaridade das injustiças, a indiferença com que acolhemos a mentira, o nepotismo, as promessas incumpridas, as fortunas alcançadas sabe-se lá como, os obscenos lucros dos bancos, as exigências agressivas - compelem-nos a receber com espanto e enlevo o que seria de admitir como normalidade.
Eis porque desta coluna modesta e vaga ergo a minha louvação aos cinco administradores do Hospital Pedro Hispano, de Matosinhos, que renunciaram a ter carro de serviço, destinando essa importância (175 mil euros, no total) à compra de equipamentos necessários à unidade de neurocirurgia. O exame das coisas atrás ditas leva-nos a considerar que as excessivas vantagens concedidas a quem exerce o poder não são consentâneas com as dificuldades dramáticas pelas quais o País atravessa.
Claro que tudo é relativo. Porém, há uma relatividade que não é pacífica, por exemplar. E esta atitude dos cinco de Matosinhos sobrepuja o habitual, porque o habitual tem sido o luxo perdulário do Poder. Eles também ensinaram que as mentalidades podem ser mudadas.|
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