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por
FILIPE FEIO e INÊS DAVID BASTOS
VASCO NEVES (imagem)
Está a completar 33 anos de carreira. Continua apaixonado pelo jornalismo?
Pelo acto jornalístico sim, embora academicamente não tenha sido uma primeira escolha. Fascina-me. Além disso, sendo, por natureza, um bocado tímido, gosto de pessoas.
Como se sente hoje na SIC Notícias, a trabalhar com jornalistas, na sua grande maioria, com metade da sua idade?
Pergunta-me se gostava de estar aqui rodeado de velhos? Não (risos). É bom que as redacções tenham gente jovem, desde que não seja só gente jovem. Já se tornou quase um cliché dizer que as redacções não têm memória. Mas às vezes algumas não têm mesmo, porque era bom terem vivido alguns acontecimentos. Tem de haver quem se lembre de como foi o 25 de Abril, e que possa meter duas ou três linhas num texto que evoquem esse período, e que traduzam uma cápsula dessa realidade.
Tendo dos melhores profissionais do meio, como explica que, depois de liderar as audiências, a SIC esteja atrás das outras estações na área da informação?
A informação é apenas um produto. Houve uma dinâmica, em termos de programação, que se alterou, e não se vê uma estação apenas por um produto. Tens de ter algo que interesse antes das notícias. Mas a parte de notícias dedicada desta rede [SIC Notícias] é um sucesso inquestionável.
Relativamente à junção das redacções... Não gostava de ter, no seu jornal, peças diferentes das que dão no canal generalista?
A junção das redacções foi algo que me pareceu lógico. Não me repugna o conceito de ter uma unidade redactorial a produzir algo uniforme, de qualidade. Numa estação que gera noticiário 24 horas por dia, em determinados períodos temos que ser modificadores de noticiário já existente. Eu consigo ser originador de noticiário, porque tenho convidados em directo. Nada impede o canal generalista de os ter também. E com uma audiência de um milhão acho que os intervenientes afluiriam.
Por falar em canais generalistas, houve alguma vez algum pedido de desculpas por parte da RTP?
Foi feito em tribunal, e com uma verba de 125 mil euros. Não há melhor desculpa (risos). Mas formalmente não. No entanto, das coisas que mais me agradou fazer nos últimos tempos foi aceitar o convite da RTP Memória para lá ir. Fizeram uma hora com trabalhos meus, falando comigo. Isso redime todo um passado, e reconciliou-me com aquele ambiente.
Voltaria à RTP?
Sempre, claro. Não estou no mercado. Mas também não estou fechado ao mercado. Já houve conversas sobre essa hipótese, projectos que nunca se concretizaram, manifestações de interesse de vários sectores.
O que pensa do novo Estatuto dos Jornalistas, vetado pelo Presidente da República?
Sou contra. Assinei tudo o que havia para assinar de manifestos contra o estatuto. Infelizmente, o Partido Socialista nunca perdeu esta vontade de organizar o mundo mediático. É uma vocação que os senhores têm e que, em várias encarnações de poder, vão repetindo. Os meus problemas foram centrados durante uma administração socialista, de um homem amabilíssimo, chamado António Guterres, que, obviamente, não teve nada a ver com aquilo. Mas que escolheu para secretário de Estado o Arons de Carvalho, que deve ter tido, como São Paulo, um estalo na cabeça. Deve ter ouvido a voz de Deus, e por isso tinha certezas. Inundou as redacções com pessoas igualmente iluminadas, pessoas com mandatos divinos...
E agora o que temos?
Agora temos um homem [ministro Santos Silva] que me parecia de extrema sensatez, com uma cultura infinitamente superior à da média (professor de Filosofia, habituado à reflexão), que também nos produz este género de mecanismos, que se não são já condicionadores de uma opinião livre, são protocensórios.
O mercado e a competitividade conseguem superar esses condicionalismos?
O poder executivo tem mantido a insistência, por exemplo, em atribuir verbas cada vez mais colossais a uma estação pública. Portanto não deixa o mercado funcionar. Talvez se abrissem mais licenças, e deixassem aparecer mais estações de cabo, por exemplo, a produzir igualmente notícias, fosse mais útil do que estar a tentar regular o mercado. O dinheiro gasto em informação pública é imenso. Também sou contra isso. Acho que esse é o grande mal da RTP. E foi o grande mal no meu tempo. Além disso, as nomeações acabam sempre por ser políticas, porque, inevitavelmente, são escolhas. Foram escolhas, naquela altura, e eu tive problemas com essas escolhas. As coisas começam a correr mal quando há a tutela da informação. O que é isso?
O que gostaria de fazer em jornalismo que ainda não fez?
Tenho um pedido a correr para entrevistar o Nélson Mandela. Gostava muito de o ouvir interpretar a realidade.
E voltando à idade...
A idade é um acidente que faz com que já não tenha o magnífico cabelo que já tive. Mas se estivesse muito empenhado nisso punha uma cabeleira à Andy Warhol (risos).
Perdeu cabelo, e o que ganhou?
Hoje entendo melhor. Hoje acho que leio melhor. Leio mais devagar. Entendo melhor aquilo que leio. Acho que tenho mais tempo... |
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