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JOSÉ MÁRIO SILVA e PAULA LOBO
ORLANDO ALMEIDA (imagem)
Ao entregar a Vittorio Gregotti o Prémio Carreira Internacional atribuído pela Trienal de Arquitectura de Lisboa/Millennium bcp - um tijolo branco com restos de cimento, criado por Pedro Cabrita Reis -, Cavaco Silva fechou um ciclo. O Centro Cultural de Belém, que se ergue a poucas centenas de metros do Museu da Electricidade, onde decorreu a cerimónia, ontem ao fim da tarde, foi simultaneamente a sua principal "obra de regime", enquanto primeiro-ministro, e um dos principais projectos de Gregotti.
Homem de esquerda, que procura elevar o desenho além da estética, entendendo o exercício da profissão como uma possibilidade de modificar o território, mas sem fazer tábua rasa do contexto geográfico e cultural, o arquitecto italiano viu o CCB (1988-1993), criado em parceria com Manuel Salgado, sofrer muitas críticas, fosse pela sua relação volumétrica com o Mosteiro dos Jerónimos, fosse pelas derrapagens orçamentais: estima-se que terá custado 40 milhões de contos, quando o orçamento inicial rondava sete milhões.
Álvaro Siza, patrono do prémio, desvalorizou essas polémicas "de natureza política", sublinhando o modo como o edifício emerge da cidade devido às suas relações de escala, recusando a tentação do "brilho imediato e por isso fugaz". Depois das resistências iniciais, lembrou o arquitecto portuense, a população foi "compreendendo de forma gradual" o conceito e acabou por aceitá-lo.
Siza destacou ainda alguns aspectos do percurso de Gregotti, iniciado nos anos 50, como a sua importantíssima reflexão teórica (plasmada nos editoriais da revista Casabella, em artigos na imprensa de referência ou em O Território da Arquitectura, "um livro fundamental") e o seu extraordinário papel na divulgação, além-fronteiras, da obra dos arquitectos portugueses (entre eles, Siza).
Manuel Salgado optou por um discurso mais afectivo, fruto da relação de amizade que mantém com Gregotti desde 1974, quando este veio a Portugal a convite de Nuno Portas, para gizar um plano urbanístico em Setúbal (que não chegou a sair do papel).
Salgado lembrou sobretudo os anos de trabalho árduo no CCB, desde o dia em que Gregotti apareceu em Lisboa, trazendo "o projecto todo, com os cinco módulos, desenhado num cartãozinho do tamanho de um bilhete de eléctrico", até à inauguração a 1 de Janeiro de 1992, a tempo de receber a presidência portuguesa da UE. Um ano depois, conquistou o Prémio Internacional de Arquitectura em Pedra. "Trabalhar com Gregotti é aprender arquitectura. Ele ensina não apenas a fazer, mas também a pensar e a ler a cidade", resumiu o mais que provável futuro vereador do Urbanismo de Lisboa.
Discursando em português, Gregotti afirmou-se um entusiasta "da vossa paisagem e da arquitectura moderna que deram ao mundo" e agradeceu a distinção recebida por "um dos meus melhores projectos e aquele que eu mais amo".|
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