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Discórdia sobre árvore traz fantasma do racismo

por

HELENA TECEDEIRO  

Brancos provocaram, mas negro é que foi condenado a 22 anos

Mychal Bell é um rapaz de 16 anos e pode agora ser condenado a 22 anos de prisão por "agressão" a um colega do liceu de Jena, pequena cidade do estado americano da Luisiana. O caso seria banal se não envolvesse um negro e um branco, fazendo ressurgir o fantasma do racismo no Sul dos EUA. Uma região onde cordas penduradas em árvores ainda são sinónimo de linchamentos, século e meio após o fim da escravatura.

Tudo começou em Setembro de 2006, o Verão estava a terminar e os alunos brancos do liceu de Jena estavam sentados debaixo da velha árvore no pátio da escola no primeiro dia de aulas. Numa cidade em que 85% da população é branca, a ordem centenária que afastava os alunos negros do centro do pátio podia ter continuado por muitos anos não fosse um aluno negro ter feito a pergunta fatídica: "Também nos podemos sentar debaixo da árvore?"

A directora do liceu não teve dúvidas: "Sentem-se onde quiserem." Mas, na manhã seguinte, os alunos que ousaram violar a tradição encontraram penduradas na velha árvore uma clara ameaça: três cordas com nó corredio. "A corda nesta região é sinónimo de escravatura, linchamentos e Ku Klux Klan [a organização supremacista branca]", disse Caseptla Bailey, a mãe de um aluno citada pelo diário francês Le Monde.

Os autores da provocação foram rapidamente identificados: três alunos brancos. O director da escola exigiu a expulsão, mas o conselho de professores considerou o incidente uma "brincadeira de crianças" e pediu três dias de suspensão.

Chocados com a decisão, os pais dos alunos negros reuniram-se para discutir a situação e na manhã seguinte alguns alunos, entre eles seis estrelas da equipa de futebol americano local, organizaram um protesto debaixo da árvore da discórdia.

Assustada, a direcção da escola chamou a polícia que ameaçou os alunos. Nos dias seguintes, agentes percorreram os corredores do liceu que acabou por ser encerrado. Para o Jena Times, "a culpa é dos pais negros" que transformaram "uma brincadeira" num "caso de racismo".

As coisas acabaram por acalmar, apesar de a tensão ser latente. A 30 de Novembro, um incêndio no liceu deixou a polícia em estado de alerta. E o fim-de-semana seguinte foi de violência, com alunos a envolverem-se numa luta.

Mas foi no dia seguinte que a situação se descontrolou. Provocados por Justin Baker, um dos autores da "brincadeira" das cordas, seis alunos negros envolveram-se numa rixa. Mychal Bell perdeu a cabeça e pontapeou o rapaz. De repente, uma acusação de "agressão" transformava-se em "tentativa de homicídio".

Os pais protestaram, as associações anti-racismo também, mas Bell foi mesmo a tribunal. Numa sala de audiências dividida entre brancos e negros, o rapaz enfrentou um júri, um procurador e um juiz brancos. Defendido por um advogado oficioso - esse sim, negro - que não colocou uma única objecção, nem convocou testemunhas, a estrela de futebol viu o sonho de conseguir uma bolsa de estudos destruído quando o júri o considerou culpado de "agressão" e pediu uma pena de 22 anos de prisão. E o aluno agredido? Saiu do hospital três horas depois.


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