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Entrevista a Tania Derveaux (fundadora do partido belga NEE): PROMESSAS DE SEXO ORAL EM CAMPANHA

por

JOÃO FRANCISCO GUERREIRO *

DIREITOS RESERVADOS (imagem)  

Vale tudo em política?

Parece que é assim! Os políticos estão a fazer muitas promessas que não vão cumprir. Com a nossa campanha nós seguimos esse exemplo, como que a dizer que têm de parar com isso porque assim vão perder muitos votos.

Qual é o vosso compromisso com os eleitores?

A única coisa que prometemos são 40 mil blowjobs (sexo oral). É uma paródia na campanha que temos aqui na Bélgica, onde prometemos 400 mil jobs (empregos). O nosso objectivo é fazer chegar a mensagem aos políticos. Aqui na Bélgica, eles prometem todos muitos empregos. É uma promessa que fica sempre por cumprir, porque eles não são capazes de a cumprir.

Você também não vai cumprir o que prometeu nesta campanha...

Não! É uma sátira. Foi apenas para lançar uma mensagem aos políticos e para os despertar. Eles perdem imenso com as promessas que fazem e não cumprem. Queremos chamar atenção.

Que reacções tem recebido?

Todos gostaram. Temos recebido muitos mails e muitas subscrições. Recebemos mais de 120 mil subscrições. Algumas pessoas pensavam que isto era real, mas a maioria sabia que era apenas uma ironia para lançar uma mensagem. Seja como for, respondemos a todas a mensagens. Os que nos enviaram mails, sabendo do que se tratava, gostaram muito da campanha. Eles sabiam porque estávamos a fazer isto e... sim! Eles gostaram muito!

Teve reacções de políticos seus opositores?

Tivemos apenas uma reacção de um político de outro país que nos enviou uma pequena carta a pedir um autógrafo. Os partidos irónicos colhem muita atenção dos media internacionais. Também de Portugal. Mas, aqui na Bélgica, não tivemos qualquer atenção dos meios de comunicação social. Eles boicotaram-nos. Apenas deram tempo de antena aos grandes partidos e nada aos pequenos. Não fomos capazes de levar a nossa mensagem até às pessoas aqui na Bélgica. Não creio que muitos políticos belgas soubessem da minha nova campanha. Faltou-nos uma plataforma mediática nacional.

Como é que justifica o apoio das pessoas à sua campanha?

Penso que as pessoas sabem que estamos a fazer isto por elas. Todo o nosso trabalho é voluntário. E continuará a ser voluntário. Elas sabem que estamos a fazer isto para desafiar os políticos a fazer o trabalho deles porque as pessoas precisam disso. É por isso que gostam da nossa campanha. É porque não nos estamos a vender. Nós estamos a fazer isto por elas.

Fale-me dos seus ideais políticos. Sente-se uma pessoa de esquerda ou de direita?

Eu não posso dar uma resposta a isso. O nosso conceito é neutro. Se eu disser, por exemplo, que sou de esquerda, vão pensar que o nosso conceito é de esquerda. Se eu disser que sou de direita, pensarão que o nosso conceito é de direita. Então é por isso que não tenho uma resposta para esta pergunta.

O que é que pensa fazer se for eleita?

Eu não tenho quaisquer ambições políticas. A única coisa que tenho dado conta é que muitas pessoas estão insatisfeitas com os políticos e não o podem demonstrar. Então o nosso conceito vai provar isso. O grande objectivo é inserir o nosso conceito na lei. É um conceito como o voto em branco na Bélgica. Podemos dizer que é como um mecanismo de controlo, porque nós damos às pessoas a oportunidade de sancionar os políticos. Se não estiverem a fazer um bom trabalho, devem devolver o dinheiro que recebem. Isso fá-los-á pensar duas vezes.

Que lição tira desta campanha?

Aprendi muito. Falei com muita gente. Eu sei que, por vezes, há um descontentamento com os políticos e isso é uma pena. Os políticos não são ouvidos. Então o que eu aprendi é que a política faz-se pelas pessoas e poderá estar próxima das pessoas. Os políticos devem escutar mais e estar permanentemente rodeados de gente. Porque a política é sobre pessoas.

Não está arrependida de fazer a campanha desta forma? Voltaria a fazer o mesmo?

Sim! Faria o mesmo. Temos dado conta que atingimos muitas pessoas. Aqui e noutros países da mesma forma. OK! Podemos não ter feito tanto com os belgas, mas atingimos muitas pessoas. Na realidade, milhões de pessoas têm sido atingidas com este conceito. O mais importante é tocar as pessoas e ajudar as pessoas. Então eu faria o mesmo outra vez! Não sei se voltaria a posar da mesma forma. Gosto de roupas práticas e não saio por aí desta forma. Mas foi necessário para passar a nossa mensagem e para despertar os políticos.

Sente que as pessoas a reconhecem na rua?

Aqui na rua talvez me conheçam um bocadinho porque tenho sido vista a dar muitas entrevistas. Mas aqui na Bélgica não! Não muito! Na campanha, eu precisei de vestir roupas brancas com as minhas asas. É como um símbolo. O branco é a cor da esperança e com as asas sou como um anjo da guarda para as pessoas contra os políticos que não fizeram bem o trabalho. E eu sou o anjo que representa a revolta das pessoas que não são ouvidas.

Qual é a apreciação que faz da credibilidade dos políticos?

Não sei se penso alguma coisa sobre isso. O que me tenho apercebido é que as pessoas pensam que a política é cada vez mais como um espectáculo. As pessoas pensam que não é sobre elas. É mais para os políticos conseguirem uma boa posição dentro do partido, ganharem muito dinheiro e poderem comprar um bom carro. Muitas pessoas pensam assim e isso não é bom!

Na mensagem política a verdade e a mentira caminham juntas?

Bem... Não é fácil... A política é difícil... E sim!... Se o caminho não é fácil, fazem-se promessas que já se sabe que não serão cumpridas! E as pessoas têm ideia que na altura certa eles não são capazes de cumprir. Então, os políticos devem pensar melhor nas promessas que fazem. Tudo bem! Pode haver pequenas diferenças, mas há uma grande discrepância entre prometer 260 mil empregos e só poder oferecer 150 mil.

Não lhe parece que na sua campanha a mensagem política sai ridicularizada?

Não. Eu não penso isso. Porque o nosso conceito tem argumentos. Temos tocado as pessoas e chamado a atenção dos políticos. E isso é muito importante. Temos conseguido a atenção dos media e isso é o mais importante porque assim vamos ser capazes de levar a nossa mensagem às pessoas. Por isso, mesmo que pensem que é ridículo, por causa dos empregos ou dos blowjobs, vão saber o que está por trás. E isso é o mais importante. Não importa se votam em nós, mas que fiquem a conhecer o conceito e que existe aqui uma possibilidade para eles.

Como é que pensa proteger a sua própria reputação depois desta campanha?

Reputação? Nunca pensei muito na reputação. Não me vejo como uma pessoa importante. O mais importante é chegar às pessoas e falar-lhes do nosso conceito.

O que vai fazer agora?

Nós somos seis pessoas e vamos continuar a fazer coisas juntos. Estamos a trabalhar num filme e isso vai continuar a tomar-nos muito tempo. Espero terminar o meu curso. Estou no último ano de Marketing. E depois verei.

Esta campanha pareceu uma rampa de lançamento no mercado de trabalho para uma finalista de Marketing!

Sim! Pode dizer isso! Mas nós também não a planeámos desta forma. Nós nunca pensámos que tivesse tanta atenção dos media internacionais. Apenas colocámos o nosso cartaz on-line, pois não tínhamos orçamento. Pagámos tudo do nosso bolso e o nosso trabalho foi voluntário. Depois isto alastrou. Mas nós não dissemos: OK! Vamos colocar isto online e isto espalha-se até Itália e Espanha e Brasil! E dá-se uma explosão. Na verdade, nós não estávamos a pensar nada disto. Mas sim. Pode dizer! No futuro é uma boa oportunidade para o nosso filme.

Como vai fazer se a sua própria credibilidade for afectada?

Eu não penso que a minha credibilidade vá ficar afectada. Porque nós lançámos uma mensagem e as pessoas percebem o que estivemos a fazer. Nós não nos estamos a vender. Não é nada do género: fazemos isto para alcançar uma boa posição no senado e para ganhar muito dinheiro. Nunca hei-de ganhar qualquer dinheiro com a política. Não me parece, sequer, que haja um problema de credibilidade.

E se tivesse sido eleita, cumpriria o mandato?

Se tivesse sido eleita, devolveria todo o dinheiro para o governo, porque eu não quero receber nada com a política. Ocuparia o lugar e tentaria implementar o nosso conceito na lei. Então os políticos poderiam ver quantas pessoas estão insatisfeitas com o partido deles. | *jornalista da TSF


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