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por
Pedro Lomba
jurista
pedro_lomba@netcabo.pt
José Sócrates praticamente reconheceu no Gana que vai convidar Robert Mugabe para a cimeira União Europeia-África. Receberão convite todos os líderes africanos, incluindo Mugabe. Embora sempre custe receber quem não se deseja, Sócrates não tem outra saída que não abrir as portas a Mugabe. Bem sei que os protestos não tardaram. A sempre sentenciosa imprensa inglesa acusou Sócrates de um lamentável recuo, visto que Mugabe e 90 dirigentes do seu partido estão proibidos desde 2002 de viajar para a Europa. Mas há um precedente: Mugabe foi a França o ano passado para uma cimeira franco-africana.
A dúvida em incluir Mugabe no certame com a Europa não resiste a uma análise mais crua da realidade africana. O currículo de Mugabe como psicopata político é incomparável. Um país destruído. Inflação a quase 1500%. Perseguição aos opositores. Massacres contra populações indefesas. O chefe do Zimbabwe tem batido todos os recordes de iniquidade. Mas vale a pena recapitular o que ainda são os líderes africanos até para perceber por que razão a maioria deles não abdica do convite a Mugabe para haver cimeira.
No fim dos anos 90 garantia-se que uma nova geração de líderes, sem os vícios da anterior, estava a tomar o poder em África. Entretanto, o que se passou? Na Etiópia, o Meles Zenawi foi reeleito em 2005 numa eleição sangrenta em que a oposição acabou presa. Musevini do Uganda? Vai em 20 anos e já mudou a Constituição para continuar. Kibaki, no Kénia, foi eleito em 2002 para conter a corrupção e neste momento, para cumprir a promessa, teria que se demitir. Kagame do Ruanda? Invadiu o Congo. Há mais. Claro que Mugabe não se compara com nenhum destes líderes. Mas se a Europa quer fazer uma cimeira com dirigentes tão pouco recomendáveis como estes, fará sentido excluir aquele que é apenas o pior deles? Às vezes, a política precisa mais de razão que de sentimentos. Apesar de alguns progressos, África tem sido governada nas últimas décadas por elites inqualificáveis. Uma reacção puramente temperamental seria perguntar: para quê mais uma cimeira com líderes que não respeitamos e que quase sempre desbaratam a nossa ajuda? O melhor é exigir aos políticos de África que governem à altura, respeitando os direitos humanos, lutando contra a corrupção e criando Estados e instituições fortes. Mas África não é só um problema dos africanos. Está à porta da Europa. Tem problemas congénitos que também nos afectam. E ainda está no ADN de muitos europeus. A ideia desta cimeira é válida. Desde que não nos esqueçamos de fazer exigências sérias. Receber convidados não significa estender-lhes um tapete vermelho. Por isso, sr. primeiro-ministro, convide lá o sinistro Mugabe e depois trate-o como ele merece.|
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