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A ideia, às vezes propagandeada em alguns meios pseudo-intelectuais, de que José ("Joe") Berardo não percebe nada de arte é esdrúxula. Muito do que hoje há para dizer sobre o assunto acontece nos leilões, nas vendas cada vez mais exorbitantes, ou seja, precisamente no mercado da arte. E, em mercado, em vários mercados e não apenas neste, José Berardo, que não é bem um empresário promotor de riqueza e emprego mas se especializou em actividades financeiras, tornou-se um expert.
Mesmo os críticos têm dificuldade em discutir o valor de uma obra. Estamos no tempo em que conta bastante o preço da assinatura do autor - que pode ter caído no goto por muitos motivos e não só pela genialidade da obra. Também hoje, um crânio cravado de diamantes pode ser arte apenas porque tem a seu favor um título - Por amor a Deus - e uma assinatura - a de Damien Hirst, o mais bem pago autor vivo.
A arte vive cada vez mais das boas ideias, da promoção delas e do negócio. Em todos estes itens, Berardo é perito. Logo à tarde prová-lo-á, mais uma vez, na inauguração do seu museu no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Dará uma resposta aos que o olham de cima - que lá estarão a apreciar o acervo comprado com o seu dinheiro - mas igualmente aos seus pares das finanças e negócios: tivesse Portugal mais homens com visão e seria um país mais dinâmico.
Resta referir o único borrão na pintura: o regatear do local onde acabaria por ficar a colecção, o negócio com cheiro a negociata envolvendo o Ministério da Cultura.
Teria ficado bem a Berardo seguir todos os exemplos de Calouste Gulbenkian. E não só alguns.
Ali, o Químico, acaba de ser sentenciado à morte. Figura destacada nas carnificinas do regime de Saddam Hussein, foi cão de guarda do ditador. Distinguiu-se por gasear populações curdas indefesas. Não surpreende, pois, que todo o Curdistão festeje a sentença. O valor da vida humana, de toda, mesmo a do maior carrasco, não comove os que sofreram a sanha do primo de Saddam.
Mas os tempos mudaram no Iraque. Já ninguém dá importância a esta sentença face à confrontação generalizada a que se assiste. Esta sentença é parte do que os Estados Unidos foram fazer ao Iraque. Mas isso hoje conta muito menos que a perigosa intervenção em surdina do Irão, em toda a região. Enquanto não se resolverem as relações com o Irão em todos os tabuleiros negociais, facções xiitas e sunitas continuarão a matança recíproca e a esperança de paz e democracia, prometida por George W. Bush, irá tardando no atoleiro iraquiano. |
Clima: Estados Unidos alertam para acordo "nado-morto"
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