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Editores vêem a feira como uma livraria

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ANA MARQUES GASTÃO  

Feira do Livro fechou ontem as portas. Em festa

A mulher tem o rosto desvanecido. Traz no carrinho o filho. Entre as mãos da criança, de olhar brando, o livro da mãe ensina como emagrecer antes de ler Selma Lagerlöf, A Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson. O que se tira de um lado acrescenta-se do outro... Mas o menino só quer brincar, aturdido com o ruído da Feira do Livro de Lisboa que ontem fechou as suas portas para voltar para o ano.

Como ele, muitos, jovens ou não, visitaram nestes quinze dias a feira, que se tem transformado cada vez mais, segundo dizem alguns dos editores, "numa grande livraria".

Há quem suspire, há quem converse, uns trocam ditos, outros falam confusamente sem estarem muito atentos aos stands e às novidades editorais. Quase todos passeiam. Alguns conservam um vago resplendor misterioso, outros vivem a banalidade das coisas, simplesmente estão: "Vamos repousar", diz o marido para a mulher, suspensa na quimera dos livros esotéricos. "Não já", responde ela, em surdina, a melhor maneira de poder ficar, remota, no lado de lá do espelho, enquanto ele bebe cerveja.

Nem têm consciência de que são personagens da história de Lisboa, no seu caminho pela feira, cujos primórdios remonta à cidade dos anos 30. Nem mesmo o rapaz do brinco e sandálias, que folheia livros no alfarrabista, ou a rapariga de shorts a vasculhar no pó das páginas um ou outro exemplar raro de Herberto ou Cesariny, dão conta disso. Ela ri-se, sabe, porém, que tanto um como outro nunca passariam por aqui, apesar de ser bom soletrar-lhes o nome, macio ou áspero: "Ah, eles não são deste filme!"

A verdade é que este ano a feira foi, também, um maior espaço de diálogo entre leitores e escritores. Estes fizeram-se representar em força, segundo Baptista Lopes, presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), de Lobo Antunes a José Saramago. São, aliás, visíveis, mais espaços de encontro em jeito de esplanada, resguardados do sol.

Tendo sido uma edição com decréscimo de participantes (menos vinte), o volume de negócios aumentou em comparação com o ano de 2006: "Sobretudo nos fins-de-semana e nos feriados, mas em alguns outros dias, as feiras, Lisboa e Porto, estiveram a abarrotar de gente", sublinha, acrescentando que a até agora, não tiveram "nenhuma informação de que algum editor estivesse a vender menos do que o ano passado", acrescenta o responsável da APEL, organizadora dos eventos juntamente com a União de Editores Portugueses (UEP).

Presentes na feira estiveram este ano 80 a 100 mil títulos, dos 170 mil disponíveis no mercado e registados na bibliografia da APEL, o que explica que as feiras "não se fazem contra as livrarias (abertas todo o ano), são um óptimo lugar de divulgação."

E se alguns se queixam de um certo abandono organizativo e das "condições deploráveis dos espaços", Baptista Lopes diz não compreender porquê: "O auditório com capacidade para albergar 100 pessoas, e o outro local ao fundo do parque, funcionaram bem." Lamentou, no entanto, a rotura da canalização por duas vezes, uma das quais mais fácil de resolver, mas que afectou seis stands entre 190: "São situações que não dependem da organização", concluiu. Para o ano, "será tida em conta a necessidade de melhoramento das instalações sanitárias e da restauração".


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