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O maior empreendedor do mundo

por

ANA BELA MARTINS DA CRUZ, Toronto  

O Cirque du Soleil já foi visto por mais de 50 milhões de pessoas

Sucesso, casas cheias de quartos com cortinas Martha Stewart, ganhar muito dinheiro. Aqui parece simples a fórmula mágica. No Norte da América, pode acontecer a todo momento. Pelo menos é o que contam os canadianos dos quatro costados, aqueles cujos avós vieram da Irlanda ou Reino Unido há pelo menos 60, 70 anos. É assim na província de Ontário, uma das mais americanizadas regiões do imenso caleidoscópio geográfico e genético que é o Canadá.

No entanto, a história de Guy Laliberté, fundador do globetrotter Cirque du Soleil, um canadiano do charmoso e afrancesado Québec, nada deve à magia. Pode considerar-se antes um autêntico milagre económico de forma humana, digno de ser capa da Forbes, merecedor de vencer o prémio de Empreendedor do Ano da Ernst & Young, que recebeu há dias no principado do Mónaco. Galardão "arrancado" a um dos favoritos, o português Belmiro de Azevedo.

O "patrão" da Sonae reagiu assim ao saber que o vencedor foi o Cirque du Soleil: "Há uma condição necessária para se ser ganhador. Tem de se ser, em simultâneo, mais eficiente em custos, e portanto em produtividade. Tem de se ser o melhor possível em inovação para acrescentar valor, porque só assim se cria uma situação de aceleração, em que a liderança é cada vez maior. E de vez em quando é bom ter percalços." Azevedo dixit.

Guy Laliberté venceu. O jovem que há quase 30 anos, então um hippie cabeludo, criou o melting pot que junta num mesmo recipiente momentos de ballet, música, humor, teatro, trapézio, acrobacia e até capoeira e que depois incorpora suavemente bastante dinheiro, coordenação e harmonia; bate tudo na misturadora eléctrica até atingir o ponto castelo. E pronto, aí está o Cirque du Soleil, a maior e mais espectacular companhia de artes performativas do mundo. O resultado é um grupo internacional que fez do seu presidente, Guy Laliberté, um dos homens mais ricos do planeta, mas que não se expõe aos media. Reserva-se.

O Cirque du Soleil, baseando-se na tradição sino-russa "sem jamais ter usado anões, seres humanos com certas características físicas, animais em cativeiro, ou outros elementos cada vez mais questionáveis nas sociedades actuais", já mostrou o que vale a mais de 50 milhões de pessoas, sete milhões das quais apenas no ano passado. Desde que foi criada em 1984, no Quebéc, "a companhia fez 250 digressões mundiais visitando mais de cem cidades".

Um dos espectáculos escolhidos para a digressão no ano passado foi Saltimbanco, "visto por mais de nove milhões de espectadores em 19 países".

O próprio Laliberté foi saltimbanco de rua na juventude, origens que não renega. Pelo contrário, recorda amiúde que foi acordeonista, engolidor de chamas e acrobata. Laliberté é um bom gestor, e como tal tem vindo a reconhecer "e a recrutar jovens talentos para formar o seu grupo. E desde o início estabeleceu como marcas registadas as suas raízes culturais multiétnicas e a combinação harmoniosa de disciplinas artísticas e acrobáticas nas suas produções."

"O espectáculo é uma celebração da vida, criado com o propósito de se tornar um 'antídoto' contra o quotidiano turbulento dos últimos anos."

Guy Laliberté - o magnata calvo, ainda juvenil e muito dado a modas - era um jovem que nos finais da década de 70 fazia vida de rua em Montreal, tocando um bandonéon (pequeno acordeão).

Entretanto, resolveu ir para a Europa imbuído de um certo espírito aventureiro que teve origem numa espécie de anedota que conta: "Na altura tinha dez anos e, uma noite, estava a jantar com os meus pais e família e a ver um programa especial da National Geographic sobre diferentes culturas em todo o mundo. Acho que foi nesse exacto momento que me senti iluminado e desejei conhecer pessoas de todas as partes do mundo."


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