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Vida dedicada aos livros

por

VANDA MARQUES  

É o editor mais antigo ainda no activo

Sem conhecer ninguém e sem um único livro para vender, Rogério Mendes de Moura fez-se à estrada. Estávamos em 1953 e tinha acabado de criar a editora Livros Horizonte. Sozinho e sem experiência na área. Pegou na sua "carripana" da Peugeot e decidiu correr o País para visitar futuros colegas a quem ia fornecer livros. "Apresentava-me e dizia que queria saber como era a livraria deles, mas eles perguntavam 'então o que tem para vender?' e a minha resposta era sempre a mesma: 'agora nada, mas hei-de ter um dia'. Ficavam todos admirados", conta. As palavras de Rogério Mendes de Moura tornaram-se verdade pouco tempo depois da sua viagem. Com a mesma tenacidade com que correu Portugal para conhecer o mundo em que entrava, construiu a Livros Horizonte.

Passados 54 anos, Rogério Moura mantém a mesma paixão pelo seu trabalho e com 82 anos tem uma energia de fazer inveja a muitos jovens de 20.

Todos os dias, chega aos escritórios da Livros Horizonte, em Lisboa, por volta das oito horas e sai sempre depois das 21 horas. Mas o seu dia de trabalho ainda não está terminado. Depois de jantar, fica sempre a ler até às duas da manhã. Fazendo bem as contas, Rogério Mendes de Moura, casado há 58 anos, trabalha diariamente cerca de 14 horas e os fins-de-semana e as férias não são excepção. "Um dia vou verificar no meu dicionário Morais, que publiquei, qual é o significado de férias e depois lhe direi", afirma prontamente.

O sucesso da editora deste pai de quatro filhos e avô de cinco netos deve-se à sua dedicação a todos os pormenores. A escolha do nome foi um deles. Livros, já que era isso que fazia, e Horizonte porque não queria ter um fim à vista.

Mas o lisboeta Rogério Mendes de Moura não tinha pensado em tudo… Quando foi ao notário para fazer a escritura puseram a palavra "limitada" a seguir ao nome da editora. O editor não gostou muito e disse ao funcionário: "Livros Horizonte limitada? Meu caro amigo, isso está a limitar a minha ideia." Mas lá ficou. Verdade seja dita, que naquela altura os horizontes queriam-se mais ou menos limitados.

Noutros tempos...

Rogério Moura não desarmou e nem mesmo quando a PIDE lhe fazia visitas e proibia os seus livros pensou em deixar a profissão que amava. Confessa que nunca se deixou limitar pela censura e arriscava sempre publicar os livros que achava interessantes. Os três primeiros que editou foram escolhidos a dedo: História do Cinema, O parto sem dor e Vocabulário de Filosofia. Em três teve problemas com dois. A censura dizia que não lhes interessava que se publicasse um livro sobre a história do cinema e o parto sem dor... "Diziam-me que eu estava errado, que a mulher foi feita para ter dor no parto. E não me deixaram fazer a segunda edição", recorda. Apesar de toda a pressão da PIDE, Rogério Moura confessa que nunca teve medo.

No início da sua profissão também importava livros do Brasil. Mas não era fácil. Assim que os pacotes chegavam à alfândega eram revistados pela PIDE. Caso estivesse lá algum livro proibido ou título que não agradasse à censura, como A Geografia da Fome, a mercadoria era toda devolvida. "A violência deles era enorme. Chegaram ao ponto de devolver cem pacotes de uma só vez", recorda.

Dois mil livros lidos

Mas o que interessava a Rogério Moura não era fazer importações. "Importar não me chegava, eu tinha que escolher os livros", explica. O prazer de fazer o livro foi algo que descobriu no seu trabalho desde o primeiro dia. É Rogério Moura quem lê todos os originais, mesmo que sejam sobre assuntos que não domina, como a colecção Sistemas de Construção. Por essa razão, sabe que já leu, pelo menos, dois mil livros, que são aqueles que editou. O que mais gosta no seu trabalho, além de fazer a marcação do original para a tipografia, escolher o tipo de letra, as entradas e a capa, é falar com os autores sobre as alterações. "Rogério Moura é um editor-artífice, talvez o único entre nós. Trabalha o livro como o ourives o ouro e o lapidador o diamante. Por outro lado, o tilintar ou não da caixa registadora não o comove. Como mulher grávida, o que lhe é importante é dar à luz o seu novo filho-livro e como as mães deseja que esse filho seja lindo", escreveu Mário Moura, irmão de Rogério Moura, na brochura de comemoração dos 50 anos da Livros Horizonte.

Se há coisa que não o emociona é mesmo falar de dinheiro ou vendas. Aliás, o editor não tem problemas em assumir que é um mau vendedor. "Sou capaz de falar sobre um livro o tempo que for necessário, mas não consigo é fazer o acto de venda, têm de ser os outros."

Gosto partilhado

Os livros é que o atraíram para esta área, pois desde criança que sabia que ia fazer qualquer coisa relacionada com eles. Na sua casa, o gosto pela leitura era partilhado pelos pais e os quatro irmãos. Rogério Moura lembra-se que com 15 anos organizava bibliotecas nas sociedades recreativas. Já na Universidade de Lisboa, onde se formou em Filosofia, adorava organizar colóquios e confessa que era o primeiro a entusiasmar os outros. O que não gosta muito é de protagonismo. "Desde garoto que nunca quis estar na primeira fila, mas gosto de saber o que os da primeira fila sabem. Prefiro estar no meu canto, porque não gosto de estar em evidência", conta ao DN.

Por isso ficou tão atrapalhado quando recebeu o Prémio Carreira - Fahrenheit 451, de 2006, atribuído pela União dos Editores Portugueses. Já antes tinha recebido um importante reconhecimento ao ser condecorado pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, em 2003. Apesar da idade, Rogério Moura não se sente intimidado pelo progresso e reconhece as suas vantagens. Para ele, as novas tecnologias não são uma ameaça, porque nada substitui o prazer de mexer no livro. Um dos melhores locais para o fazer é a Feira do Livro de Lisboa, onde vai todos os dias ao final do dia. "É capaz de ser um vício, mas não sou capaz de estar sem ler."


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