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INÊS DAVID BASTOS
Lisa tem 37 anos e sofre de uma doença terminal. Lisa vai escolher, entre três pessoas com doença renal, aquela que merece receber o seu rim, para ser transplantada e, assim, sobreviver à doença. Tudo vai acontecer no novo reality show criado pela Endemol (produtora do Big Brother) e que deverá ir para o ar na próxima sexta-feira no canal holandês BNN, contra todas as críticas que tem recebido da comunidade médica e da classe política local e além-fronteiras.
A escolha será feita com base em conversas com familiares e na análise do perfil dos doentes (cuja cara e identidade nunca é revelada). Os telespectadores também terão uma palavra a dizer, não fosse este programa de entretenimento um reality show, que terá o nome de O Grande Show do Doador. O voto do público faz-se por SMS durante os 80 minutos do programa. Mas a decisão final cabe à doadora.
O formato está a chocar a Holanda. "Isto é uma ideia de loucos", reagiu à BBC o democrata-cristão Joop Atsma, considerando "inconcebível que se vote quem é que vai receber um rim". Às críticas, o director da BNN (cujo fundador morreu de doença renal) responde que o programa servirá para chamar a atenção para a falta de órgãos para doação na Holanda e defende que as probabilidades de os doentes receberem um rim num reality show "é maior" que no sistema de saúde.
Os argumentos não convencem os críticos. John Feehally, até há pouco presidente da Associação Renal do Reino Unido, condenou o programa: "o cenário apresentado é eticamente inaceitável", disse, acrescentando que "o formato do o programa não tem qualquer tipo de relação com a forma como os transplantes são feitos no mundo real".
Os críticos ingleses de televisão vieram avisar que a BNN e a Endemol estão a dar um "passo longe de mais" e sustentaram que tal formato seria "impensável" em Inglaterra.
Igual posição manifestaram os especialistas contactados pelo DN." Estamos a inserir no entretenimento pessoas que merecem respeito e há que cumprir princípios éticos", reagiu a especialista em assuntos da comunicação social Felisbela Lopes. Emídio Rangel, ex-director de programas da SIC (que rejeitou o Big Brother), defendeu que "estão a ser ultrapassados todos os limites" e acusou o patrão a Endemol, John de Mol, de ser "um homem sinistro, sem princípios e escrúpulos" e de "explorar e lucrar com a condição humana no que é mais trágico". Rangel considerou o programa "abaixo de cão" e sublinhou que não consegue imaginá-lo em Portugal.
Rui Nunes, professor de bioética na Universidade de Medicina do Porto, disse ao DN que, em Portugal, tal formato "não seria possível nem ética, nem legal, nem administrativamente". O especialista explicou que "a nova lei vai permitir a doação em vida de órgãos, mas em condições específicas, não de acordo com a vontade do doador". E lembrou que apenas o "instituto da compatibilidade" pode definir o beneficiário de um transplante". Em termos éticos, prosseguiu Rui Nunes, o programa "é inaceitável", porque existe um princípio etico soberano, que é o da solidariedade, em que o dador preferencial deve ser a comunidade em geral, para se escolher o melhor receptor possível".
"Este programa ofende critérios gerais da dignidade humana", alertou o especialista. |
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