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Lágrimas e confrontos no adeus à TV de Caracas

por

INÊS DAVID BASTOS  

Foi uma noite de tensão, de violência, de consternação, de lágrimas, mas também de aplausos e de festa, com direito a fogo de artifício até. Parece contraditório? E é. A Venezuela esteve ontem, definitivamente, dividida entre os que apoiam o Presidente Hugo Chávez e os que a ele se opõem. As razões políticas lá estavam, subliminares, mas o que ontem exaltou os ânimos, sobretudo em Caracas, e dividiu o povo venezuelano foi o encerramento daquele que era o mais antigo e popular canal privado do país, a Rádio Caracas Televisão (RCTV), que deu o seu último suspiro às 23.59, por ordem de Chávez, por entender que o canal era "fascista" e apelava "à rebelião civil".

"Um amigo é para sempre" foi a última mensagem que os telespectadores ouviram, pouco antes de funcionários, artistas e jornalistas da televisão privada entoarem, com lágrimas nos olhos, o hino nacional. Depois, o ecrã ficou escuro. A RCTV - que fazia oposição ao regime de Chávez - deixava assim de emitir em sinal aberto, 53 anos depois de ter sido criada. Vinte minutos depois, na mesma frequência, nascia a TVES, o canal de "serviço público" criado pelo próprio governo.

Lá fora, à hora em que a RCTV se calou, um pouco por toda a capital, ouviram-se sirenes de apoio ao canal, mas também o estrondo dos foguetes lançados pelos apoiantes do Presidente, que saíram à rua para festejar a decisão de Chávez de não renovar a licença do canal. O clima era de tensão. Alguns manifestantes e elementos da polícia enfrentaram-se na rua. Às pedras lançadas pelos opositores de Chávez e apoiantes da RCTV, a polícia respondeu com jactos de água e gás lacrimogéneo. Onze polícias ficaram feridos, quatro com gravidade.

Pouco antes do fim do canal, o seu director fez questão de avisar que não vai baixar os braços e pediu aos funcionários (mais de três mil) que acreditassem no futuro. "Jamais percam a esperança, nos veremos em breve", disse o responsável. Também Marcel Granier, presidente do canal privado, prometeu: "A democracia e a RCTV voltarão à Venezuela". |


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