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por
PEDRO CORREIA
ARQUIVO DN-RUI COUTINHO (imagem)
Novidade na velha Europa: os trabalhadores precários são cada vez em maior número. E são cada vez mais qualificados: podemos encontrá-los em call centers mas também em sofisticados núcleos de investigação científica.
Tiago Gillot é um deles: engenheiro agrónomo, de 29 anos, cumpre um estágio profissional numa associação agrícola. Tem esperança de poder transitar para o quadro, mas por enquanto nada lhe garante que seja assim. O diploma conseguido no Instituto Superior de Agronomia está longe de ser uma garantia de emprego a longo prazo.
Tiago é um dos trabalhadores precários que vão desfilar esta tarde em Lisboa, integrados na marcha da CGTP que se dirige para a Alameda D. Afonso Henriques - o que acontece pela primeira vez com estes assalariados atípicos agora constituídos numa rede europeia.
É a parada MayDay, iniciada há dois anos em cerca de uma dezena de grandes centros urbanos europeus, como Milão e Barcelona, e agora alargada à capital portuguesa, Berlim, Copenhaga, Liège, Málaga e Nápoles.
São estagiários, bolseiros, contratados a prazo, subcontratados, imigrantes - todos com título de trabalho precário - e também desempregados de longa duração. Gente que geralmente não costuma aparecer nas manifestações nem ser alvo do interesse dos sindicatos, precisamente por não possuirem poder reivindicativo.
Mas as coisas estão a mudar. Lá fora e aqui. Londres, Roma, Viena, Marselha, Estocolmo, Helsínquia, Hamburgo e Sevilha já viram os trabalhadores precários descer à rua no último 1.º de Maio em desfiles imaginativos e fora dos cânones do sindicalismo clássico. Desta vez sucederá também em Lisboa.
A ideia começou a germinar em Fevereiro, quando se reuniram grupos de estudantes universitários com a Plataforma Intermitentes (profissionais das artes e do espectáculo com trabalho irregular), a Associação dos Bolseiros de Investigação Científica e a ATTAC (Associação para a Taxação das Transações Financeiras para a Ajuda aos Cidadãos). Ficou então decidido levar por diante a parada MayDay.
Quantos aparecerão? Em declarações ao DN, Tiago Gillot não adianta estimativas. Porque se trata de "um movimento espontâneo, sem dirigentes nem estrutura organizativa". Aparecerá quem puder e quem quiser. Com base no passa-palavra, um dos mais eficazes veículos de propaganda.
A ideia é "dar visibilidade" a um conjunto cada vez mais vasto de trabalhadores que, como assinala Rita Cruz no blogue do movimento português, constitui a "geração 500 euros", a tal que entra no mercado de trabalho a ganhar 500 euros e dificilmente consegue descolar daquele patamar. O problema é que esta geração "já está nos 30 [anos] e a caminho dos 40". Sem soluções à vista, sem luz ao fundo do túnel.
"Não me obriguem a vir para a rua gritar", cantava José Afonso. Forçados pelas condições laborais vigentes, eles preparam-se para sair à rua e gritar.|
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